terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Consciência de classe: Aspectos marxistas na precarização do trabalho contemporâneo


Bernard Blier, Renato Salvatori, Marcello Mastroianni em "I compagni" de Mario Monicelli.


CONSCIÊNCIA DE CLASSE: ASPECTOS MARXISTAS NA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO CONTEMPORÂNEO


SANDRA OLIVEIRA MAYER BARROS
MESTRE EM GESTÃO DE ORGANIZAÇÕES E SISTEMAS PÚBLICOS PELA  UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS

Desde o século XIX as sociedade capitalistas vem presenciando metamorfoses que alteraram o modo de ser das relações de trabalho e de consequência, o nexo subjetivo dos trabalhadores em escala global. O sociometabolismo estruturador das relações capital-trabalho que se estrutura pela acumulação de capital e lucro em sua forma máxima aprofundou a apropriação privada da riqueza socialmente gerada e de consequência viu a ofensiva neoliberal (e seu mestre – O Mercado) se esparramar sobre toda a vida do trabalhador.
Com a crise estrutural do capital em 1970, a ofensiva do capital provocou a alteração de seu sistema sociometabólico, que diz respeito ao modo de produção de mais-valia ou modo de subsunção da força de trabalho ao capital (ALVES, 2013). Com a exploração máxima do trabalhador e a fetichização do consumo, ocorreu uma perda da razão social do trabalho, expropriando do trabalhador sua subjetividade fazendo-o desperceber sua condição de proletariedade (ALVES, 2013). Este movimento é denominado pela literatura de reestruturação produtiva do capital ou acumulação flexível[1] que provocou a barbárie social da precarização do trabalho nas ultimas décadas em escala global.
A literatura sociológica que discute as metamorfoses do mundo do trabalho tem tratado a precarização do trabalho como sendo o movimento de desconstrução da relação salarial constituída no período histórico do capitalismo do pós-guerra. Assim, ela teria um sentido objetivo de perda da razão social do trabalho por conta de mudanças na ordem salarial que implicariam na perda (ou corrosão) de direitos do trabalho. Nesse caso, a precarização do trabalho seria entendida como o desmonte de formas reguladas de exploração da força de trabalho como mercadoria. A vigência do novo capitalismo flexível, com o surgimento de novas modalidades de contratação salarial, desregulação da jornada de trabalho e instauração de novos modos da remuneração flexível, seriam consideradas formas de precarização da força de trabalho (ALVES, artigo eletrônico)
A precarização do trabalho ocasiona a perda da razão social do trabalho e esse ciclo limita, ou mesmo extingue, as possibilidades do trabalho se reverter e um instrumento de fazer prosperar a dignidade, a solidariedade e as potencialidades do homem-que-trabalha (FRANCO; DRUCK; SELIGMANN-SILVA, 2010) ou como denominou Antunes (1995) a classe-que-vive-do-trabalho.
Sendo a classe trabalhadora no mundo contemporâneo mais complexa e heterogênea do que aquela existente durante o período de expansão do fordismo, o resgate do sentido de pertencimento de classe (no caso da classe de proletariado hodierno) é questão crucial nesta virada de século (ANTUNES, 2009).
O problema de pesquisa ao qual este estudo pretende discorrer e dialogar compreende analisar as complexidades e adversidades do desenvolvimento da consciência de classe em relações de trabalho precarizadas na sociedade que vive o espírito do toyotismo[2].Almeja-se neste momento contribuir com algumas reflexões críticas sobre a morfologia social do trabalho de cariz precarizado, que surge a partir dos novos locais de trabalho reestruturados sob a ofensiva do capitalismo global.
A investigação será orientada pelos referenciais clássicos e contemporâneos que dialogam sobre as temáticas da reestruturação produtiva do capital através do fordismo e após, da captura da subjetividade traçada pelo toyotismo.
2               REVISITANDO A CONSCIÊNCIA DE CLASSE: DO NOVO PROLETARIADO À “CLASSE PARA SI”
Para Antunes (2009) proletariado hoje ou classe-que-vive-do-trabalho compreende a totalidade dos assalariados, homens mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho e que são despossuídos dos meios de produção[3] - definição marxiniana e marxista. Assim a classe trabalhadora hoje é o proletariado de hoje, não sendo mais somente o operário da época marxista. Este conceitual de proletariado será adotado para fins deste estudo[4].
Desta forma e sob este enfoque atemporal a primazia do proletariado como classe social se justifica posto que é de forma singular a única classe capaz de, sob determinadas condições, ir além da condição de proletariedade, negando, desse modo, a relação-capital (ALVES, 2013)
Contudo, a “condição de proletariedade” não implica na necessária consciência de classe. Isso porque a intensificação dos fetichismos sociais e da mercadoria, ativados pela aguda manipulação do capitalismo tardio imprime obstáculos à formação da consciência de classe necessária e, portanto, à formação da classe social do proletariado; esse processo impede a constituição do sujeito histórico de classe capaz de dar resposta efetiva à miséria de ordem burguesa e de promover a práxis emancipatória no século XXI (ALVES, 2013).
O ser proletariado dentro de uma classe social no sentido pleno de sujeito histórico-coletivo é o sujeito com maior ou menor efetivação e capacidade de produzir um tipo específico de consciência social: a consciência de classe e promover a “negação da negação”, isto é, a negação da condição de proletariedade por meio da constituição processual da consciência de classe e luta de classe (classe social no sentido de sujeito histórico capaz de transformação histórica efetiva) (ALVES, 2013).MF
O proletariado como classe social pressupõe o movimento de classe-em-si para classe-para-si (ou para além-de-si) e, por conseguinte, o movimento da consciência de classe. Em suma, podemos dizer que: a “classe” do proletariado e a “classe” da burguesia são por primazia as classes medulares do modo de produção capitalista. Numa extremidade assenta-se a classe proletária, que contempla os trabalhadores assalariados (produtivos ou improdutivos), desguarnecidos e alheios aos meios de produção. Na outra extremidade da sociedade capitalista encontra-se a burguesia, que contempla os grandes proprietários dos meios de produção, sendo estes os agentes concentradores da riqueza social derivada da exploração dos trabalhadores assalariados, riqueza esta privativamente apropriada por estes capitalistas.
Assim, para Alves (2013, 34):
 o capitalismo global como capitalismo manipulatório nas condições da vigência plena do fetichismo da mercadoria expõe uma contradição crucial entre, por um lado, a universalização da condição de proletariedade e, por outro lado, a obstaculização efetiva da consciência de classe de homens e mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho.

Já a definição do conceito de consciência de classe é um tema extremamente complexo e fecundo. Para um avanço heurístico, basta definir para este trabalho consciência de classe como o elo que permite a passagem da classe “em si”, agrupamento com interesses objetivos latentes à classe “para si”, grupo de poder que tente a organizar-se para o conflito ou a luta política, e cujos interesses tornam-se manifesto[5] (STAVENHAGEN, 1970). De forma bastante simplificada o termo engloba crenças e atitudes de um sujeito a respeito de sua classe social ou condição econômica, inclusive quanto aos interesses e à estrutura de sua classe social.
Ainda segundo Lukács (2003) do ponto de vista abstrato e formal, a consciência de classe é, ao mesmo tempo, uma inconsciência, determinada conforme a classe, de sua própria situação econômica, histórica e social, de maneira que a vocação de uma classe para dominação significa que é possível, a partir dos seus interesses e da sua consciência de classe, organizar o conjunto da sociedade conforme seus interesses.MF
Segundo Ataíde essa definição contempla prioritariamente dois carizes essenciais que singularizam a consciência de classe: visão da totalidade da sociedade e ter um projeto para organizá-la conforme seus interesses. Ainda segundo Ataíde (ANO p. 04):
Neste mesmo sentido, ao descrever a formação do proletariado em Miséria da filosofia, Marx afirma, expressando-se em termos hegelianos, que a concentração de um grande número de operários nas grandes fábricas das cidades foi o que primeiramente uniu o proletariado nos primórdios do capitalismo. Mas nessa primeira forma de união o proletariado se constituía apenas como uma classe em si, ou seja, era uma classe em relação ao capital. Mas é necessário que o proletariado se torne uma classe para si mesmo, isto é, que eleve a necessidade econômica de sua luta de classe ao nível de uma vontade consciente, de uma consciência de classe ativa.
Ainda para Ataíde (p. 05):
Na consciência de classe se dá o autoconhecimento do proletariado, o que lhe revela, ao mesmo tempo, toda a estrutura da sociedade capitalista e sua própria missão histórica enquanto classe. Tal consciência se constitui, portanto, como uma unidade dialética indissociável de teoria e prática. É por isso que Lukács afirma que “a combatividade de uma classe é tanto maior quanto melhor for a consciência que ela puder ter na crença de sua própria vocação”, isto é, na sua vocação para dominação, de seu papel e lugar na história.
Proletariado e Consciência e classe são conceitos de certa forma universais e, sob o regime capitalista, se tornam atemporais. Contudo, o capitalismo em suas crises busca se reconstituir através de reestrurações produtivas e a partir da década de 70 a reestruração produtiva do capital alterou o sociometabolismo das relações de trabalho em escala global, afetando de forma significativa a vida do proletariado hodierno. É esta a temática de caráter histórico que será abordado na seção seguinte.
3               RETROCEDENDO NA HISTÓRIA: O SOCIOMETABOLISMO DO CAPITAL E A PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO
O Homem adquire status social com o trabalho, tratando-se do salto ontológico que firma o diálogo entre o homem e a natureza na busca de seus interesses e demandas, sendo este aspecto que diferencia o Homem dos demais seres; o Homem torna-se um ser social pelo trabalho (MARX, 2004). Ainda para Marx (2004) é no trabalho que o Homem adquire humanização. Contudo, no modo de produção capitalista o trabalho se opõe à humanização e desenvolvimento do ser social, sobrepujando o Homem de sua consciência, transmutando-o em um ser alienado e entranhado para com o trabalho (desumanizando, pois, o ser). Esta é a grande contradição do trabalho nas sociedades capitalistas.
Através do fordismo, os trabalhadores puderam conhecer a sociedade do consumo em massa, dando início à fetichização da posse e da mercadoria, causando a expropriação do trabalhador de sua própria existência (BIHR, 1998; ALVES, 2013). Nas condições históricas da grande indústria instaura-se com plenitude a disputa tempo do trabalho estranhado versus “tempo livre” e a produção em massa impõe consumo de massa, transformando o “tempo livre” em tempo de consumo e lazer.
 Para Alves (2013, p. 222):
Com a disseminação intensa e ampliada de formas derivadas de valor na sociedade burguesa hipertardia, o fetichismo da mercadoria e as múltiplas formas de fetichismo social tendem a impregnar as relações humano-sociais, colocando obstáculos efetivos à formação da consciência de classe necessária e, portanto, à formação da classe social do proletariado.

Contudo, os traços caracterizadores do regime de acumulação fordista traziam as sementes de sua própria insustentabilidade e falência; falência essa que ocorreu com intensidade entre o fim dos anos 60 e começo dos anos 70. Para Marcelino (2002, p. 45) “o regime fordista não conseguiu sustentar a contradição visível de que ao mesmo tempo em que tornou o trabalhador o agente direto do processo produtivo, também exigiu dele que participasse apenas com sua capacidade laborativa”. 
A derrocada do fordismo e do keynesianismo evidenciou as contradições intrínsecas ao capitalismo de acumulação e exploração. Os resultados da conjunção de fatores levou o capitalismo à queda das taxas de lucros, dos ganhos de produtividade e aumento dos custos de investimentos e crise da superprodução (HARVEY, 1994; MÉSZÁROS, 2009). Em conjunto com a crise de 1970, houve a emergência do processo de globalização econômica ao final da década de 1980 o gerou um recrudescimento de políticas de cunho neoliberal e o questionamento do papel do Estado (ANTUNES, 2011).
Uma das principais consequências dessa crise estrutural, foi o encadeamento de desregulamentação e flexibilização do processo produtivo, dos mercados e da força de trabalho, orientados por um forte ataque do Estado e do capital conta a classe trabalhadora e suas conquistas de base fordista (ANTUNES, 2009), movimento que passou a ser denominado acumulação flexível.
Para Mészáros (2009), a reestruturação do capital, através da acumulação flexível, através controle social que impôs uma alienação cooptada através de uma intensificação da exploração da mão de obra, desregulamentação dos contratos de trabalho, do processo produtivo e do mercado, o que acabou por majorar a longo prazo, a contradição social fundamental, o conflito entre capital e trabalho.
Harvey (1994) apresenta o novo regime que se instalou a partir do início da década de 1970: a acumulação flexível, que encontrou na experiência japonesa os traços para o novo sistema de produção de mercadorias, que ficou conhecido como toyotismo[6]. A acumulação flexível determinou a necessidade de desregulamentação ampla: flexibilização dos direitos trabalhistas, heterogeneização do mercado de consumo e uso intensivo da terceirização (dentre outras); o novo sistema de produção foi rapidamente incorporado em todos os países de hegemonia econômica capitalista (EUA, Japão e Europa), e na sequência, por outros (MARCELINO, 2002).
No Brasil, mesmo não sendo de primeira ordem do capitalismo mundial, a influência deste fez sentir seus efeitos e segundo Alves (2000) entre 1981 e 1983 começa a se desenhar o toyotismo brasileiro. Com a crise dos anos 80, grandes demissões tornaram muitos trabalhadores terceirizados sob variadas formas e outros tipos de precarização dos vínculos contratuais, como os contratos temporários, terceirizados e em tempo parcial (FRANCO; DRUCK; SELIGMANN-SILVA, 2010) dando início à barbárie da precarização da mão de obra que iria permear as relações de trabalho nas décadas seguintes.
4          REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA DO CAPITAL E PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO: A DESSUBJETIVAÇÃO DE CLASSE
Sob o ponto de vista do trabalhador, o novo regime de relação capital/trabalho proporcionado pela acumulação flexível, buscou a intensificação das condições de exploração da força de trabalho de modo a potencializar o uso de maquinário já disponível e de consequência, aumentar também os lucros. O novo sistema de produção transfigurou a forma de organização do trabalho e as relações entre patrões, trabalhadores e sindicatos. Neste cerne, a acumulação flexível de cariz toyotista inaugurou uma nova etapa da exploração da força de trabalho, através da cooptação psíquica. Com esta dinâmica, ocorreu a precarização e a fragmentação das relações de trabalho, obliterando as possibilidades de consciência de classe do proletariado, obstruindo as relações sociais e desconstituindo/deformando o sujeito histórico do homem-que-trabalha (ALVES, 2013). Esse esvaziamento e enfraquecimento da luta de classes é o desejado pelo capital que imprime em escala mundial uma ação destrutiva contra a força humana de trabalho (ANTUNES, 2009).
Para Alves (2013, p. 86):
a flexibilidade da força de trabalho expressa a necessidade imperiosa de o capital subsumir, ou ainda, submeter e subordinar, o trabalho assalariado à lógica da valorização, através da perpétua sublevação da produção (e reprodução) de mercadorias, inclusive, e principalmente, da força de trabalho. É por isso que a “acumulação flexível” se apoia, principalmente, na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho e ainda, dos produtos e padrões de consumo. É a flexibilidade do trabalho, compreendida como sendo a plena capacidade de o capital tornar domável, complacente e submissa a força de trabalho, que irá caracterizar o “momento predominante” do complexo de reestruturação produtiva.

 Ainda para Alves (2013, p. 134):

A crise da consciência da classe é mais um elemento da precarização do trabalho. O movimento voraz do capital corrói a consciência de classe, contribuindo, desse modo, para a fragmentação/invisibilização da classe do trabalho. (Grifo da autora)

Para Alves (2000) e Marcelino (2002), a expansão do capital e a desintegração da trajetória de subjetividade causada pela precarização da mão de obra provocaram a fragmentação do suporte material do trabalhador coletivo e das lutas operárias. Essa descentralização produtiva favorece o esmigalhamento desse trabalhador coletivo e se coloca como obstáculo à construção de uma consciência da classe e do trabalhador (FRANCO; DRUCK; SELIGMANN-SILVA, 2010), causando uma barbárie para a materialidade e subjetividade dos trabalhadores.
A precarização abala e esmorece a organização dos trabalhadores, transfigurando a base objetiva da luta de classes e capturando a subjetividade do trabalhador (MARCELINO, 2002, ALVES, 2013). Outrossim, o processo de precarização ocasionado pela flexibilização das relações de trabalho imprimi em escala mundial um enfraquecimento da dinâmica de estruturação das identidades individual e coletiva, importando no desencadeamento da alienação e do estranhamento do trabalho (ANTUNES, 2009). Para Alves (2010, p. 02) precariedade laboral acarreta:
a deformação de sujeitos humano-genéricos, aprofundando, deste modo, a auto-alienação do homem que trabalha com a redução da vida pessoal à mero trabalho assalariado. Por outro lado, a incerteza e instabilidade das novas modalidades de contratação salarial e a vigência da remuneração flexível alteram, do mesmo modo, a troca metabólica entre o homem e os outros homens (a dimensão da sociabilidade); e entre o homem e si-próprio (a dimensão da auto-referência pessoal). Deste modo, a precarização do trabalho e a precarização do homem que trabalho implicam a abertura de uma tríplice crise da subjetividade humana: a crise da vida pessoal, a crise de sociabilidade e a crise de auto-referência pessoal.

Neste sentido Alves (2010, p.12) exemplifica:
(...) a adoção da lean production ou “empresa enxuta” significa a obnubilização do “trabalhador social” no plano da consciência contingente de operários e empregados por meio da reestruturação do “trabalhador coletivo” do capital. A fragmentação da classe dos trabalhadores assalariados, no sentido da fragilização (ou flexibilização) dos laços contratuais, opera um processo de dessolidarização com impactos diruptivo na formação da consciência de classe contingente e necessária.

Importa neste momento ressaltar que a precarização do trabalho ocasiona um processo que Alves (2013) denomina de dessubjetivação de classe. Esta dessubjetivação faz parte do pacote de medidas ofensivas do capital, de cariz toyotista, que buscam o domínio da psique do trabalhador, o que ocasiona um desmonte da consciência social do trabalhador, obstacularizando a formação da consciência de classe.
Ilustrando este cenário, Alves discorre formas pontuais de dessubjetivação do trabalhador (2013, p. 94):
os intensos processos de reestruturação produtiva que ocorreram nas grandes empresas capitalistas, principalmente a partir de meados da década de 1970; ou na política, com as experiências históricas de derrotas sindicais e políticas da classe operária nos últimos trinta anos. Enfim, derrotas históricas do trabalho no processo de luta de classes levaram, como resultado irremediável, a intensos processos sociais de dessubjetivação de classe.

Outro elemento de suma importante que se pode identificar no movimento de reestruturação produtiva dos últimos 30 anos aliado ao neoliberalismo global (que provocou a precarização do trabalho) é a apologia ao individualismo da vida, com sua gama de praticas anti-coletivistas, esvaziando e fragmentando o discurso sindical e a memória de luta da classe.
Neste sentido para Alves (2010, p. 11):
No contexto histórico da economia, política e cultura neoliberal, buscou-se restringir e eliminar o desenvolvimento da consciência de classe e da luta de classes. No habitat da consciência social, a consciência de classe é uma espécie em extinção. Nos locais de trabalho reestruturados, salienta-se a presença da individualização das relações de trabalho e a descoletivização das relações salariais. A crise do Direito do Trabalho, que se interverte em Direito Civil, é um exemplo da individualização e descoletivização das relações de trabalho na sociedade salarial.

A dessubjetivação provoca uma degradação dos imperativos coletivistas da classe dos trabalhadores. Trata-se do vangloriamento do ethos do individualismo que impregna a sociedade civil neoliberal em prejuízo do ethos da solidariedade de classe (ALVES, 2013).
Como já se sabe, o home é um ser social, ou seja, ele interage com outros Homens na busca de atendimento de suas necessidades comuns. Uma vez que a subjetividade coletivista do Homem que vive sob os auspícios do espírito toyotista de cariz neoliberal sofre uma degradação, sua capacidade de se relacionar com outros da mesma espécie em busca do coletivo comum, também se dissipa.
E é justamente isso que a acumulação flexível busca, a dissolução do coletivo, com vistas a obliterar o desenvolvimento da consciência de classe. A precarização do trabalho ocasionada pelo espírito toyotista traça seus efeitos não somente nas relações de trabalho, mas na subjetividade coletivista do homem-que-trabalha. É sobre essa temática que se deterá a próxima seção.
5  O ETHOS INDIVIDUALISTA SOB OS AUSPÍCIOS DA ACUMULAÇÃO FLEXÍVEL NEOLIBERAL: O OLHO QUE TUDO VÊ
Sob o espírito do toyotismo, presencia-se o esvaziamento do discurso do conflito ou luta de classes. Prega-se uma atitude colaboradora dos membros da equipe de trabalho, que maquia o escopo de envolver o trabalhador no ideais da empresa
A ideia de gestão de pessoas implica disseminar valores, sonhos, expectativas e aspirações que emulem o trabalho flexível. Não se trata apenas de administrar recursos humanos, mas sim, de manipular talentos humanos, no sentido de cultivar o envolvimento de cada um com os ideais (e ideias) da empresa. Na verdade, altera-se o modo de ser do trabalhador assalariado e seu nexo psicofísico com a produção do capital, ampliando-se, como inovação sociometabólica do capital, a “captura” da subjetividade do trabalho pelos valores empresariais.
Neste sentido para Alves (2013, p.93):
Portanto, podemos caracterizar a nova morfologia social do trabalho por dinâmicas psicossociais que implicam a dessubjetivação de classe, “captura” da subjetividade do trabalhador assalariado e redução do trabalho vivo a força de trabalho como mercadoria.

O espírito toyotista como agente desestruturador da subjetividade coletiva do trabalhador ganha destaque através do controle ativo dos trabalhadores por meio de células: neste sistema os trabalhadores são separados por equipes; cada uma das equipes é encarregada de cumprir uma meta preestabelecida pelos gerentes. Contudo, o tempo é escasso para tal atividade, o que faz com que o trabalhador se concentre integralmente à sua célula de trabalho, impedindo sua solidariedade coletiva.
Verifica-se no toyotismo um processo de autoexploração, em que a equipe age de forma gerencial e supervisora, controlando e fiscalizando individualmente cada trabalhador (PINTO, 2010). Todos os trabalhadores tem que dar sua total energia, senão serão julgados pelos próprios colegas, que exercerão controle minucioso de uns sobre os outros. Não há necessidade um supervisor em função exclusiva, pois um trabalhador controla e vigia o outro. Tal sistema é nefasto para a constituição de coletividades entre os trabalhadores e minam as chances de desenvolvimento de uma consciência de classe. Assim, coloca-se toda a responsabilidade da produção na figura do trabalhador, que passa a ver os colegas como seu fiscal, juiz e carrasco.
Premiações e gratificações para o cumprimento de metas criam no ambiente de trabalho uma pseudo-colaboração, que acirra ainda mais a precarização do trabalho, o individualismo e a ausência de consciência de classe.
Este aspecto do toyotismo, de criar uma ilusão em torno das equipes e do controle de qualidade torna cada trabalhador o fiscal de todos os outros. Percebe-se então o caráter panóptico que o sistema exerce sobre o indivíduo-trabalhador. De forma feliz Alves (2011) fez alusão ao instrumento de vigia de Jeremy Bentham e julgamos oportuno resgatar a ideia do “olho que a tudo vê”. O panóptico de Bentham é uma estrutura que, dentro do ambiente organizacional, permite uma inspeção constante dos sujeitos nas instituições disciplinares (ver sem ser visto). A ideia do panóptico pode ser utilizada de forma bastante oportuna quando de trata de captar o espírito toyotista. O método toyotista imprime uma carga de tensão pelo fato de todos os operários serem vigias de si mesmos e dos outros. Exemplo são as produções onde os operários devem apontar os defeitos dos produtos que passam pela sessão anterior à sua. Cada um torna-se supervisor do outro.
O panóptico de Bentham também é referenciado na obra Vigiar e Punir de Michel Foucalt (XXX). Podemos de forma acertada buscar trechos na referida obra em que o espírito do toyotismo ganha ilustração contemporânea como instrumento de controle, vigilância e dominação.
Percebe-se aqui a presença de uma das ferramentas toyotistas: o Círculo de Controle de Qualidade (CCQ). Esta dinâmica promove a reunião de grupos de trabalhadores, com o intuito de debater a qualidade do trabalho em equipe por eles desenvolvido e buscar estratégias para a melhoria da produtividade e rendimento. Trata-se de mais uma medida individualista em prejuízo do coletivismo entre os trabalhadores. Os CCQ visam internalizar nos trabalhadores um ritmo obrigatório, em que o controle é exercido pelos próprios colegas. Vejamos em Vigiar e Punir a receita deste controle, descrito de forma cabível para o espírito toyotista:
(...)mais que um ritmo coletivo e obrigatório, imposto do exterior; é um  “programa”; ele realiza a elaboração do próprio ato; controla do interior seu desenrolar e suas fases (Vigiar a Punir, p. 178).

No tocante ao processo de vigilância de um trabalhador sobre o outro, vemos o mesmo processo em Vigiar e Punir (que neste momento introduz a ideia do Panóptico):

Vejamos nestes trechos de Vigiar e Punir todo o espírito do Toyotismo e o que importa concluir neste momento é que este espírito mina as possibilidades de conjunções de vontade coletivas, essenciais para o desenvolvimento da consciência de classe.
6  CONSIDERAÇÕES FINAIS
A organização social e política dos trabalhadores se efetiva hoje como a forma fundamental de luta contra a precarização do trabalho e de sua subjetividade. Somente com práticas de resistências é que se poderá ver aflorar traços, ainda que rudimentares de desenvolvimento de consciência social capaz de levar ao desabrochar da consciência de classe. Como explana Alves (2013, p. 219):
A verdadeira crise do nosso tempo histórico não é a crise das economias capitalistas, mas sim a crise do homem como sujeito histórico de classe, isto é, ser humano-genérico capaz de dar respostas radicais à crise estrutural do sociometabolismo do capital em suas múltiplas dimensões

Lamentavelmente o cenário não inspira otimismo para a classe trabalhadora refém da ofensiva neoliberal de cariz toyotista. A classe do precariado não consegue se organizar e mantém seu caráter fragmentado, com uma fraca representação sindical, impedindo a passagem da classe em-si para a classe para-si, comprometendo em última instância a luta de classes e o desenvolvimento da consciência de classe.
A grande barreira imposta pela precarização do trabalho de cariz toyotista é o ataque à solidariedade coletiva do trabalhador, impulsionando a dominação ideológica da classe-que-vive-do-trabalho.
No início deste trabalho retomamos Marx e sua teoria do ser social, que se desenvolve e se sociabiliza através de trabalho. No cenário contemporâneo, de relações de trabalho fragmentadas e inseguras, a emancipação humana só poderá ser obtida com a reflexão de cada trabalhador no sentido de se identificar como classe do proletariado e resgatar esse pertencimento.
Somente com essa conscientização é que o proletariado poderá produzir um tipo específico de consciência social: “a consciência de classe e promover a “negação da negação”, isto é, a negação da condição de proletariedade por meio da constituição processual da consciência de classe e luta de classe” (ALVES, 2013, p. 69).
Tragicamente a estrutura sindical[7], que deveria conduzir os atos e consciências no sentido do despertar político e social se cala e se mostra incapaz de desenvolver coalizões de forças, com raras exceções. O enfraquecimento sindical demonstra que este não conseguiu se valer de estratégias à altura da ofensiva neoliberal toyotista e seu sociometabolismo de barbárie social.
Outros catalizadores de luta são os movimentos sociais, organizações de classe e partidos políticos que buscam a preservação e ampliação dos direitos dos trabalhadores e há que se considerar ainda a Justiça do Trabalho. Contudo, como em todos os nichos da sociedade, todos estes agentes estão sujeitos à influência política e social externos e por isso seus posicionamentos devem sempre ser avaliados.
Em especial no Brasil, com o governo Temer, o pacote de privatizações e de medidas neoliberais visando ampliar o lucro da classe burguesa só faz firmar a tendência ao desmonte dos direitos dos trabalhadores e a precarização da classe-que-vive-do-trabalho.
O espírito toyotista arruina as possibilidade do indivíduo enquanto classe desenvolver sua consciência, posto que prega uma cultura de exacerbação do individualismo em prejuízo das forma de solidariedade e de atuação coletiva e social (ANTUNES, 2009, p. 50. Com este cenário, ocorre a destruição do sindicalismo de classe e sua conversão num sindicalismo dócil, de parceria, ou mesmo em um sindicalismo de empresa (2009, p. 55).
Somente com debates teóricos e análises de experiências empíricas será possível vislumbrar mecanismos de assumir as rédeas do controle social impregnado pela lógica da valorização do valor e do mercado. Impedir que os trabalhadores precarizados fiquem à margem das formas de organização social e política de classe um desafio imperioso no mundo contemporâneo (ANTUNES, 2011). MF
Por fim, cumpre retomar Marx e buscar sempre seu legado, como a teoria das classes, em que externa o funcionamento da luta de classes e expõe a exploração do Homem (como classe) pelo Homem (como classe), concluindo que a classe trabalhadora é a única que pode por fim às mazelas desta exploração e fazer aflorar a consciência de classe.

Sandra Oliveira Mayer Barros



REFERÊNCIAS

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______. Dimensões da Precarização: Ensaios de sociologia do trabalho. Bauru: Editora Praxis, 2013.
______. Trabalho, subjetividade e capitalismo manipulatório - O novo metabolismo social do trabalho e a precarização do homem que trabalha. Revista Estudos do Trabalho, Ano, v. 5, 2010.
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho?: Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Campinas – São Paulo: Cortez, 1995.
______. Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial, 2009.
______. O continente do labor. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
OLIVEIRA, Sandro Barbosa de. Sobre a consciência de classe. Sociologia (São Paulo. 2006), v. 1, p. 68-74, 2015.
BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. 1. ed.
Rio de Janeiro: ZAHAR, 2009.
BIHR, Alain. Da grande noite à alternativa: o movimento operário europeu em crise São Paulo: Boitempo Editorial, 1998.
FRANCO, Tânia; DRUCK, Maria da Graça; SELIGMANN-SILVA, Edith, As novas relações de trabalho, o desgaste mental do trabalhador e os transtornos mentais no trabalho precarizado. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 35, n. 122, p. 229-248, 2010.
HARVEY, David; Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Edições Loyola, 1994.
______. O enigma do capital e as crises do capitalismo, São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
LUKÁCS, Georg. História e Consciência de classe: Estudos sobre a dialética Marxista. Martins Fontes: São Paulo, 2003.
______. Para uma ontologia do ser social I, São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.
MARCELINO, Paula Regina Pereira. A lógica da precarização: terceirização do trabalho na Honda do Brasil. Dissertação de Mestrado. Universidade de Campinas. 2002.
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política, livro I: O processo de produção do capital. Boitempo Editorial, 2013.
______. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.
______.  A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
MÉSZÁROS, István. A crise estrutural do capital, São Paulo: Boitempo Editorial, 2009.
PINTO, Geraldo Augusto. A organização do trabalho no século 20: Taylorismo, Fordismo
e Toyotismo. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010.
STAVENHAGEN, Rodolfo. Las Clases sociales em las sociedades agrarias (Cap. 2: Clases sociales y estratificación), Siglo Veintuno Editores S.A., México, 1970 (17 ed.) pp. 20-46. Versão eletrônica adquirida pelo Google Books.


[1] Para Bauman (2009, p. 35) flexibilidade é a plavra de ordem das novas relações precarizadas. É um termo aplicado ao mercado de trabalho, implicando no fim do emprego regular; a sociedade do trabalho passa a contar com contratos de curto prazo, contratos precários ou sem contratos, cargos sem estabilidade e com clausula de “até novo aviso”.
[2] Toyotismo aqui é usado no sentido de paradigma, não apenas no sentifo de sistema de engenharia de produção japonesa, mas no sentido de sistema de amalgamento de (ver livro Giovanni)
[3] Antunes (2009) discorre com profusão sobre o conceito de proletariado e envolve no conceito hodierno de proletariado tanto os trabalhadores produtivos como os improdutivos.
[4] Adota-se este conceito, apesar da renúncia que importantes autores e pesquisadores sociais fizeram da utilização de conceitos como “classe social”, “proletariado” ou mesmo “capitalismo”, pois para muitos deles nada existe para além desse modo de organizar a produção social (o capitalismo), o que percebemos, pelo contrário, é a ampliação, num patamar universal, do que denominamos de “condição de proletariedade” e de vigência plena do modo de produção de mercadorias (ALVES, 2013, p. 39)
[5] A tomada de consciência de classe e a transformação da “classe em si” em “classe para si” são uma dos mais complexos e delicados problemas da teoria das classes. Marx, Lukács, Dahrendorf, Parsons e Merton são autores referência para o estudo de consciência de classe.
[6] Toyotismo aqui é referenciado como a “ideologia orgânica” do novo complexo de reestruturação produtiva do capital que encontra nas novas tecnologias da informação e comunicação e no sociometabolismo da barbárie, a materialidade sociotécnica (e psicossocial) adequada à nova produção de mercadorias. Trata-se do espírito do Toyotismo.
[7] Sobre o sindicalismo, sua crise e seus limites recomenda-se a leitura do dossier “Movimento Operário e
Sindical” Revista São Paulo em Perspectiva. SEADE, Vol. 12. Nº1.1998.

(Conteúdo publicado originalmente na XV Semana de Pós-graduação das Ciências Sociais da UNESP de Araraquara em 2016)


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

No cinema a esperança de uma sociedade equânime


Il caso Mattei de Francesco Rosi.


Luiz Chiozzotto


O filme tem um tempo de sobrevivência mais longo que a vontade das pessoas que falam dele e da lembrança daquelas que fazem Cinema. Por isso nunca foi tão importante fazer filmes como é hoje, até por uma questão de sobrevivência de nossa sociedade. O filme que fazemos rudimentarmente mostra como nós vivemos o nosso tempo; diferente daquele filme que entra nas salas de cinema, que ao contrário, falseia a realidade em detrimento a um target especifico, ou a um interesse de uma determinada casta. Fazer filmes sem pensar em mostrá-lo naquele sistema inventado no séc. XIX, mas imaginá-lo sendo visto no celular, no iPod, na tela do computador, no aparelho de TV, DVD, Blue Ray, Data Show; ou projetado nas nuvens. O que importa é ter uma boa ideia, ainda o maior diferencial entre os filmes que valem a pena ser feitos.
A Itália é uma fonte de boas ideias,  um dos únicos países da Europa que não fez uma revolução, todavia com o cinema político dos anos 70 realiza a maior delas. Tão forte como uma revolução de rua, pois no decurso do tempo é possível revivê-la através de seus filmes, que à época foram feitos por cineastas intelectualizados e que encontraram no Estado e na iniciativa privada fontes para fazê-lo. Se hoje os filmes tornaram-se banais é em função do público blasé que deve referenciar, construído pela TV, cujos ideais se confundem com a propaganda de um automóvel zero quilometro, símbolo de status, e que dá a efêmera e falsa sensação de pertencer às elites quando se está dirigindo-o pelas estradas.  Aos brasileiros esses filmes italianos servem de referência, pois nesse momento estamos vivendo momentos semelhantes, onde o povo foi traído por um golpe de Estado permitindo a instalação de um governo que não ouve as massa populares, que não as representa, porque não foi eleito por ela, e está lá em decorrência de um conluio com a elite e a mídia e a omissão da justiça. 
Nossas políticas públicas não provêm da demandas desses governados. Nossos governantes partem do principio que os governados são desinteressados e mal informados sobre políticas públicas, e coadunam com as elites, essas sim os agentes que além de forjarem a opinião pública, manipulam, se comunicando com ela sempre de cima para baixo.
Os administradores e oficiais cumprem as decisões de quem está no poder, oriundas de demandas que partem das elites e não das massas, o que seria o correto em sociedades civilizadas. Dessa maneira não provendo das massas populares tais demandas, são os valores das elites que definem as políticas públicas, e elas têm a tendência de deixar tudo como está. Assim o sistema político todo depende do consenso e do interesse dessas elites, ficando as instituições democráticas nesse modelo de governo emanado das elites, apenas na esfera do simbolismo. As eleições e os partidos têm apenas valor simbólico oferecendo aos governados a sensação de estar exercendo a democracia, seja ao votarem, seja ao escolherem o partido político e os candidatos com os quais mais se apeguem. E como perceber isso quando a grande mídia, detentora dos meios de emissão da informação está envolvida no golpe e não levam a verdade aos televisores, jornais, revistas, rádios etc, senão pelo viés das vontades das elites? O cinema, este antigo e fiel aliado das massas tem ainda essa chama da liberdade iluminando, por ser de vanguarda, visionário e, sobretudo, anti-conformista.

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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Salvaguardar nossa cultura é manter unida a nação



Luigi Chiozzotto


"A verdadeira terra dos bárbaros não é aquela que nunca conheceu a arte, mas que, repleta de obras-primas, não pode nem apreciar nem mantê-las" Marcel Proust. 

Esse pensamento abarca diversas questões sobre cidadania, pois ser cidadão não é só ter deveres e direitos, pois dentre os deveres de um cidadão está também o de apontar os descaminhos de um povo a fim de que sejam corrigidos por aqueles que fazem reflexão a respeito, os intelectuais, os cientistas, os filosofos 
por exemplo; pois os trabalhadores estando quase sempre ocupados de mais com com os prazos da linha de produção, ineptos com a construção da “mais valia”, com os carnês à pagar e sobretudo com o alimento imediato de sua prole não tem tempo nem preparo para questionar isso ou aquilo de nossa cultura.  Um pequeno exemplo disso, que pode passar desapercebido por qualquer um menos observador é o de não ter opções de filmes diferentes daqueles americanos numa cidade, ou institutos de pesquisa cientifica, só para citar dois. Cidades de origem industrial do interior de São Paulo que no decurso de sua história formou massa de operários e que aceitarem dedicar-se exclusivamente à produção de bens de consumo e fornecer a sua força de trabalho. Esses cidadãos delegaram aos politicos e governantes o poder de decisões que abarcam questões de administração da cidade, políticos esses do bem e do mal que destinaram recursos ora para a saúde, ora para educação e quase nunca para a cultura.  E não termos um filme, um artesanato, um livro, uma pesquisa cientifica feita por nossos cidadãos em nossas próprias cidades aponta para o fato de que perdemos o contato com o que há de mais refinado em nosso povo, o seu conhecimento, seja este oriundo de seu intelecto, seja aquele que é aprendido e repetido de seus antepassados, aponta para o fato que perdemos contato com nossa própria cultura, com nossa criatividade, Se ignorarmos essa questão e não produzirmos cultura (livros, filmes, musica, artesanato, etc), e tão pouco preservarmos e valorizarmoos o que já produzimos estamos nos atrasando em relação a outros povos e suas culturas, Mas pior do que isso é não perceber isso acontecendo, é não encontrar espaços para exibir o pensamento e a arte de nossos cidadãos porque o espaço e o tempo estão destinados as produções de culturas externas, no caso do cinema nacional, a forte presença dos filmes americanos no país, seja nos cinemas que em aluguel e venda de dvds e a fins, formando uma espécie de corrente onde todos os gomos estão interligados e não nos permite inserir nosso pensamento, uma corrente que por fim nos aprisiona no pensamento de uma outra cultura externa. Se não acordarmos para esses fatos os bárbaros destruíram a arte de nossa civilização com sua pseudo-cultura ou pela falta da prática pelo nosso povo e nós não nos reconheceremos mais como uma unidade, como uma nação. Além disso a ignorância de um povo tem também origem na condução que é dada pelos seus governantes quando ao retirarem da cultura e da educação a sua importância e o seu valor, tornam o povo ignorante e, sobretudo afascinados pela mercadoria que produzem e que depois devem consumir, subservientes aos comandos dos manipuladores da verdade. Quando essa ignorância nos reduz a reclamar apenas de necessidades básicas do "ter", e nos acuamos e ou nos intimidamos em apontar necessidades mais refinadas, do "ser", percebemos o quanto embrutecemos nosso espirito.

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A influência da fotografia de retrato na estética do cinema italiano dos anos 50'



Luigi Chiozzotto  

O Cinema italiano teve importante contribuição da fotografia de retrato, em particular a de Arturo Ghergo, para a consolidação como o maior Cinema do mundo entre as décadas de 50' e 70'. O interessante do ponto de vista do cinema italiano é que a estética das imagens de Arturo Ghergo foi além da fotografia, tendo Arturo Ghergo especial importância e contribuição para o nascimento do cinema italiano, incluindo o seu nome na história da Itália ao lado de Giovanni Pastrone, Carmine Gallone e posteriormente Roberto Rossellini, o qual colaborou de forma indireta com as estratégias de consolidação e domínio através de um cinema forte na Europa idealizado por Benito Mussolini. Em 1937, por ordem do Dulce foi construído na então periferia de Roma, a Cinecittà, um dos maiores estúdios de cinema já feitos, a fim de inserir o cinema italiano na competição global por bons filmes. Por conta disso produtoras italianas da época como Titanus, La Cine criavam demandas para um tipo particular de fotografia, que teve implicação direta no feitiche de seus produtos, Atrizes e Atores, transformando em verdadeiros astros e estrelas os protagonistas de seus filmes. Aproveitando-se de todo um aparato visual composto de técnicas de iluminação e maquiagem, aqueles fotógrafos retratistas transformam em semideuses Atores e Atrizes, intitulados no meio como "Divos", suas fotos eram utilizadas estrategicamente de maneira muito glamourosa em publicidade antes do lançamento dos filmes. Pouquíssimos eram os fotógrafos que dominavam com perfeição aquela técnica que combinava fotografia e pintura, dentre eles Arturo Ghergo que no início dos anos 30 já possuía um estúdio fotográfico funcionando na rua Condotti, 61, em Roma, e muito requisitado particularmente pelos aspirantes ao estrelato. Também outros fotógrafos contribuíram para o glamour desses anos como o Elio Luxardo, italiano, nascido em Sorocaba e emigrado para Itália, além de outros como Arturo Bragaglia, Manlio Villoresi e Pasquale De Antonis. Décadas depois, em 1991 teve início em Roma, em via Bocca di Leone, no Studio Ghergo, um trabalho de recuperação de negativos em grande formato, 18x24 cm, contendo imagens de muitos Atores e Atrizes do cinema italiano do pós Guerra, fotografados pelo fotografo italiano Arturo Ghergo, Montefano - AN (1901-1959), entre as décadas de 1930 e 1950. Partindo de uma ideia original de Cristina Ghergo, fotógrafa e filha de Arturo Ghergo. Este trabalho teve também como colaboradores Antonio Bosco, Ampliador de Cristina Ghergo e Luigi Chiozzotto (editor desta página), Assistente de Cristina entre 1992 e 1993, e que nos intervalos de seus afazeres no estúdio, identificavam, selecionavam e arquivavam centenas de imagens de figuras ilustres da política, da sociedade, da igreja, do teatro e do cinema italiano, dentre elas, fazia parte desse valioso acervo estrelas como Alida Valli, Sofia Loren, Gina Lolobridgida, Silvana Mangano, Monica Vitti, Amedeo Nazzari, Massimo Girotti, Vittorio Gassman. Esse projeto culminou numa mostra intitulada “Arturo Ghergo - Fotografie 1930-1959 “ realizada no Palazzo delle Esposizioni, em Roma, em 2012, com cura de Claudio Domini e Cristina Ghergo, o qual foi um sucesso. 

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Michelangelo Antonioni, experiência direta com o poder da significação da imagem




Luigi Chiozzotto

Michelangelo Antonioni soube como nenhum outro Cineasta compreender e expressar com tamanha sensibilidade e pela linguagem cinematográfica, a dificuldade de comunicação entre os seres humanos no mundo de hoje, não obstante tantos dispositivos criados para estabelecer contato entre os seres. Por isso Antonioni é conhecido pelo epíteto de “cineasta da incomunicabilidade” e com distinta razão e atualidade. Embora no início de sua carreira Antonioni tenha perseguido os passos do neorrealismo, sobretudo em seus primeiros documentários, “Gente del Po” (1947), por exemplo; já em seu primeiro filme de ficção "Cronaca di un amore" - Crimes da Alma (1950), já se nota sua ruptura com os cânones do movimento percebendo-se seu efeito apenas no nível interior dos personagens, interpretados brilhantemente por Massimo Girotti e pela estreante, e a época ainda não Atriz, Lucia Bosè. Seus filmes posteriores invadem o espaço psicológico de sua geração, em especial aquele representado pela burguesia italiana. Com “Il Grido” – O Grito (1957); Michelangelo explora a questão do estranhamento do ser em meio a um mundo materialista, mesquinho, onde ele persegue os caminhos de um homem abandonado pela amada e que não encontra mais lugar no mundo sem ela. O filme embora rico em elementos inovadores do ponto de vista psicológico e de linguagem cinematográfica, deixa a desejar na construção do personagem “Aldo” (Steve Cochran), que por pertencer a um mundo proletário e consequentemente condicionado a cadeia de produção, mostra-se estranhamente rebelde ao abandonar sua vida segura para com sua filha pequena aventurar-se pelo país. Talvez tenha sido esse o motivo de o público não aceitá-lo, por não ter se identificado, e a crítica tê-lo rejeitado, fazendo com que Antonioni revesse sua trajetória cinematográfica para os anos seguintes. Uma experiência direta com o poder da significação da imagem aconteceu comigo quando retornava de carro com meus primos de Arezzo para a casa deles em Subbiamo, fazendo-me entender com significativa clareza a postura do enquadramento e a perseguição dos detalhes no trabalho de Michelangelo Antonioni. No caminho entre essas duas cidades existe uma capela com um afresco de Piero Della Francesca iluminado por uma luz difusa vinda do alto das janelas, sob um ambiente que inspira a contemplação. Antes daquela imagem ser pintada ali havia uma parede branca que fora inundada por cores e incorporada de linhas que se cruzam e que contam uma história. Os elementos pictóricos ali distribuídos de maneira a representar um momento da vida do homem viajaram no tempo nos emocionando sobremaneira mesmo após três séculos. Os humanos, por assim dizer, que estão representados na tela, nada falam, a imagem não emite som algum, no entanto, a impressão que se tem é de ouvir os ruídos daquele momento. Transferindo essa sensação para a tela branca do cinema, onde é projetada a imagem, em particular num filme de Michelangelo Antonioni, o que percebemos é algo semelhante; os elementos distribuídos em cena, objetos, personagens, iluminação, tudo faz com que o som, ou o simples pronunciamento de palavras seja mera convenção, um adorno para suportar a significação da imagem, uma espécie de moldura dourada em torno a um quadro. Para mim a cinematografia de Antonioni representa um estudo da evolução do olhar humano através dos meios de captação de imagem de nosso tempo, assim como Piero Della Francesca observou o seu mundo através de uma perspectiva representação tridimensional que possibilitava dar a ilusão da espessura e da profundidade, revolucionando a pintura moderna, Antonioni o faz no fotograma, e com uma abordagem poética, singular, emocionante, revolucionando ao seu modo o cinema mundial. Mas sua relação com a pintura não é exatamente aquela de Piero Della Francesca o qual citei como exemplo de comparativo para falar de um Cineasta que busca uma linguagem estética mais elevada, mas sim a citação de artistas plásticos contemporâneos. Nos filmes de Antonioni há por exemplo Filippo de Pisis, Giorgio De Chirico, Giorgio Morandi, Pollock, Rothko entre outros.

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domingo, 26 de junho de 2016

As armas norte americanas sendo descarregadas na tela dos cinemas



Luigi Chiozzotto

Quase entramos em pânico dentro de uma locadora quando percebemos quanto tempo de história com armas e violência de todo tipo ajudamos a promover no decurso desses 30 anos. Além do que mais de 90% seguramente foram de filmes norte americanos, cujo conteúdo continha pólvora encapsulada, não quero com isso acusar esse país por tal conteúdo, já que Hollywood produziu diversos gêneros e muitos cineastas americanos são verdadeiramente geniais. Estamos diante de um marketing americano agressivo, que deixa pouco espaço para outras culturas nos cinemas, depois reclamamos de estarmos sendo manipulados pelos EUA para levar adiante golpes de estado, fomos construindo-lhes o caminho em resenhas, artigos e críticas desde então. Não há espaço que não esteja ocupado nas prateleiras do mundo pelo cinema norte americano, bom ou mal a humanidade já tem uma enorme quantidade de neurônios de sua psique ocupado pela invasão norte americana, consumá-la de fato em um novo golpe no Brasil foi apenas um passo. Do outro lado do oceano a Itália é um dos únicos países da Europa que não fez uma revolução, todavia com o cinema político dos anos 70 realiza a maior delas, tão forte como uma revolução de rua, pois no decurso do tempo é possível revivê-la através de seus filmes, mas eles não estão nas locadoras. Aos brasileiros essa experiência serve de referência pois estamos sempre vivendo o crepúsculo desses tempos. Há alguns dias fui ao Shopping levar meu filho para mostrar-lhe o que é um filme italiano, mostrar-lhe a diversidade de línguas no cinema, francesa, espanhola, russa etc, que esses filmes existem de verdade, embora não passem no cinema, na TV à cabo e não tenha nas locadoras para alugar. Ele aos 5 anos de idade já questiona o idioma dos filmes que consegue assistir (inglês). Quando cheguei à Livraria Saraiva fui ao setor de dvd's e blu-ray, queria mostrar-lhe que existe também filmes que não são americanos no mundo, que existe os europeus por exemplo, afinal desde pequeno falo em italiano com ele e algumas vezes ele me assiste dando aulas de italiano para alguns alunos criança que frequentam meus cursos. Depois de 5 minutos procurando entre os mais de 5 mil títulos finalmente encontramos dois filmes europeus, um dvd em italiano, ótimo por sinal, de Federico Fellini - 8 e mezzo (1963), e um francês em blu-ray - Jules e Jim - Uma Mulher para Dois (1962), de François Truffaut, também ótimo. Fiquei muito chateado em confronto com meu filho que sempre ouviu eu falar de cinema italiano com ele, chamei um vendedor e perguntei se havia outros títulos europeus ali na loja e ele me respondeu que não pois nunca pedem outros filmes que não americanos. Fomos embora e assistimos em casa uma cópia que tenho de "Divorzio à italiana" de Pietro Germi, com Stefania Sandrelli e Marcello Mastroianni e rimos bastante dessa genial e genuína comédia à italiana. 


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