terça-feira, 17 de julho de 2018

Spaghetti western, um gênero cinematográfico por excelência arena das lutas de classes

Sergio Leone e Claudia Cardinale em C'era una volta il West


O cinema italiano no seu auge, anos 1960/1970, alcançou públicos nos países mais distantes porque aproveita a criatividade de seus argumentistas, roteiristas e diretores cinematográficos em filmes de gênero, dos quais o mais famoso foi o Spaghetti western. Duccio Tessari e os três Sergios, Sergio Leone, Sergio Sollinas e Sergio Corbucci foram os grandes diretores a levar às telas de cinema de todo o mundo filmes ambientados no velho oeste americano feitos no deserto de Almeria. Nessa década eram os temas inspirados na conquista do espaço que faziam sucesso, pois os americanos queriam provar superioridade contra a U.R.S.S que muito avançada em tecnologia espacial já havia colocado um homem no espaço ao redor da terra com sucesso. Nesse contexto o western era coisa do passado, talvez por serem aqueles feitos pelos americanos sisudos demais, pouco inventivos, sobretudo, por não refletirem mais a realidade, nem dos anos que retratavam, tão pouco por não conseguir aderir à realidade do tempo em que eram feitos. As roupas desgastadas e empoeiradas dos cowboys nos almoxarifados das grandes produtoras de Hollywood ocupavam espaço e eles não tinham mais ideia do que fazer com elas. Foi Sergio Leone, um apaixonado pelo gênero que o fez florecer na Itália, reconstruiu cenários do velho oeste com perfeição em Cinecittà em Roma e aproveitou da similaridade dos desertos de Almeria na Espanha com aquele ambiente do velho oeste. Para realizar Per un pugno di dollari - Por Um Punhado de Dólares (1964) seu primeiro filme da trilogia do dólar, Leone alugou aqueles velhos e surrados uniformes dos cowboys que vestiram muito bem os seus psicologicamente complicados personagens em busca de uma identidade que os inserissem na sociedade. Ao contrário daqueles americanos que contavam histórias das conquistas sangrentas de norte-americanos contra os Apaches, naturais do território, os filmes italianos refletiam a identidade dos sujeitos dos anos 60’. Leone ambienta suas histórias no clima político italiano e sob a atmosfera da revolução de 68’, que entre outras coisas colocava a questão da emancipação da mulher no centro das reivindicações e movimentos de rua, como ele fez em C'era una volta il West - Era uma Vez no Oeste (1968), ao colocar pela primeira vez como protagonista de uma história do western Claudia Cardinale. Os heróis do Spaghetti western não lutavam com índios, não se concentravam em forte apaches, nem sempre eram americanos que em busca de povoar o velho oeste iam contra as leis de civilidade. Os heróis do Spaghetti western mantinham-se na fronteira com o México onde o conflito com os sub proletários mexicanos se dava em função da necessidade que eles tinham de roubar aquilo que o Estado mexicano não lhes proporcionava e pior, lhes roubava através de um poder constituído por corruptos ditadores. Como uma vez disse Thomas Milian interprete de muitos heróis peões da tortilla movie: “Muitos westerns de terceiro mundo fizeram bastante caixa porque, enquanto o herói era sempre americano, o homem do terceiro mundo podia ser em certo sentido também o proletário” (Thomas Milian) (UVA & PICCHI, 2006, p 35) Trad. Autor. Dessa maneira o Spaghetti western foi uma arena onde o cinema pode abordar temas políticos sociais hodiernos na Itália e de países sul americanos sob o domínio de ditaduras militares inspiradas pelos ares belicosos oriundos do Pentágono e da guerra fria. Os cowboys dos Sergios eram franceses, alemães, italianos, e às vezes americanos, refletiam os imigrantes europeus que ao chegarem à America tinham que lutar pelo seu espaço. Os conflitos e batalhas no Spaghetti western não eram entre exércitos americanos atacando com desequilíbrio de forças um bando de índios que com flechas defendiam seu território, eles se davam em pequenos confrontos, ao estilo guerra de trincheiras e contra os mexicanos.  Os mexicanos nos filmes de Spaghetti western eram representados como indivíduos alienados, capitães do mato que manipulados por patrões gananciosos e ditadores sacrificavam seus iguais ampliando a injustiça, a desigualdade social e a concentração de renda em favor dos mais ricos da sociedade mexicana, perpetuando a manutenção de políticos corruptos no poder. Vamos relembrar um pouco dos grandes filmes italianos esquecidos, a partir da cinegrafia de criativos cineastas italianos, entre 1964 e 1975, auge do Spaghetti western, alguns diretores italianos que mais exploraram o tema foram: Bruno Corbucci; Giulio Petroni; Roberto Mauri; Gianfranco Parolini; Sergio Bergonzelli; Camillo Bazzoni; Enzo Barboni; Luigi Bazzini; Ferdinando Baldi; Ernesto Gataldi entre outros.

Luiz Chiozzotto.

e-mail: chiozzottoit@gmail.com

sábado, 14 de abril de 2018

O processo criativo de Fellini passava pela crença de seres supra-sensíveis agindo em seus filmes




Fellini no prenúncio da concepção de um filme fala dele como se ainda não lhe pertencesse de fato; um ser mágico que se deixa descobrir aos poucos. Nesses primeiros encontros, ainda envolvido em uma atmosfera típica dos sonhos, o filme dá algumas indicações de como pretende ter sua aventura terrena contada. Fellini ainda não tem nenhum poder sobre o seu destino, e na verdade nunca terá, pois é o destino do filme que conduzirá grande parte dos acontecimentos que o cercam. Como uma tela em branco diante um pintor que ainda não sabe o que vai pintar: uma paisagem, um rosto, ou um nu; ele é apenas um espectro em uma seção espírita. Filme, cuja história Fellini não sabe precisar detalhes, pois não o escolheu, e sim fora escolhido pelo filme. A vaga ideia de argumento se apresenta por resquícios de imagens, contornos de expressões faciais e formas de vestir que muitas vezes aproximam-se de caricaturas de seres reais que Fellini desenha em pedaços de papel dos mais diversos: envelopes, guardanapos, extratos bancários etc. Nesse estágio Fellini convoca pessoas comuns que o visitam em seu estúdio, oriundas de anúncios em jornais para tentar sublimar nelas as personagens vislumbradas no filme que aceitou trabalhar naquele momento. Nessas condições um filme faz parte de uma magia que evoca inevitavelmente a presença de um mago para realizar essa transmutação a partir da visão que ele tem dos egos de suas personagens. E ao escolher o elenco Fellini apenas dá vida temporária àqueles egos.
Enviava o seu fluído para me hipnotizar, em outras palavras para me fazer transformar-se no vovô, naquele próprio vovô ali, enquanto filmávamos a cena da neblina, quando eu me perdi e tenho medo, Fellini não fazia outra coisa que gritar - Ianigro não vê nada, e enviava o seu fluido, - He, He!! – Mas eu sou um mago e os magos vêem sempre, mesmo no escuro. Os entendidos dizem que Fellini hipnotiza seus atores para fazer deles aquilo que quer, mas eu não. (GIUSEPPE IANIGRO), personagem do avô de Titta em Amarcord em entrevista dada em Viaggio nell’Italia che cambia.
O filme precisa de Fellini para poder sair do plano que está e cristalizar-se no fotograma, tornar-se parte do inconsciente coletivo, algo inspirado na realidade e sussurrado por essa energia que emana do mundo supra-sensível com o qual o mago Fellini parece se comunicar. Através dessa descrição o leitor pode até ser levado a acreditar tratar-se do argumento do filme ‘Fellini 8 e mezzo’, entretanto, é na verdade do ethos felliniano que estou falando enquanto me movo pelas pistas do enigma.
Nenhum diretor de cinema me influenciou. Em todo caso, nem mais nem menos que os demais. O cinema em seu conjunto influenciou-me, mas igualmente influenciaram-me minha família, minha religião, minha educação, meu casamento, meus amigos e assim por diante: tudo que pertence a minha época, tudo que me tornou o que sou. (Federico Fellini) (FELLINI 1986)  
E é ao descobrir-se um mago que Fellini passa a ter domínio, como nenhum outro cineasta, da magia da sétima arte, muitas vezes dispensando até mesmo roteiros para realizar um filme, mas nunca deixando de confiar em sua equipe de trabalho que o acompanha há anos, a qual ele considera parte de sua família, por vezes fora padrinho de casamento de filhos de seus colaboradores. A partir dessa nova experiência sensorial os laços neorealistas também são reforçados no momento em que Fellini coloca na aura de suas personagens características de comportamento que vêm de encontro à condição imposta pelo meio social sem entrar em atrito, elas buscam a redenção na aceitação de suas fragilidades como humanos. A diferença com Rossellini e Visconti, seus contemporâneos neorealistas, é que suas personagens desafortunadas não se revoltam contra o sistema, razão de ser do sofrimento. “Nunca tive a preocupação de me afastar do neorealismo com o qual jamais me identifiquei, mesmo quando trabalhei ao lado de Rossellini. Essa foi uma grande experiência de vida, como tantas outras coisas, mas eu jamais a considerei dependente de uma estética” (FEDERICO FELLINI), (PETTIGREW, 1994). Os seres fellinianos antes de se apresentarem como ‘gente comum’, e iguais uns aos outros, percorrem individualmente, na senda da navalha, o seu caminho evolutivo em busca da salvação. E no percurso de suas existências essas almas deparam com seu próprio ‘eu’, vislumbrando o autoconhecimento; como diz Bazin, seus personagens não evoluem, amadurecem. “Tenho a impressão que Fellini é o diretor que vai mais longe, hoje, na estética do neorealismo, tão longe que atravessa e se encontra do outro lado.” Andre Bazin.
O filme é o meio ideal para a minha maneira de narrar histórias. Ele me dá flexibilidade que não encontro em nenhuma outra parte. Nesse aspecto, o filme supera a pintura. Posso inventar a vida em imagens móveis, posso entrar em outras dimensões, posso exagerar, colocar acentos próprios e filtrar a essência. Mais do que a música, a pintura, e até a literatura, para mim o filme está perto da própria criação. Ele é como uma forma de vida com impulsos próprios de existência, realidades próprias, formas próprias de inteligência.  Eu parto de um sentimento – não de uma idéia, muito menos ainda de uma ideologia. Estou a serviço da minha história, que gostaria de ser contada, e devo perceber para onde ela quer me conduzir. (FEDRICO FELLINI), (CHARLOTTE, 1991).
As imagens criadas por Fellini e retiradas de sua imaginação, experiência sensorial, sonhos são reconstituídas em desenhos, adornadas por frases poéticas num processo que se completa no cinema entre luzes, sombras, personagens. “Luci del varietà, Lo sceico bianco, I vitelloni, La strada, Le notti di Cabiria, La dolce vita, Otto e mezzo e Amarcord" estão na lista dos 100 filmes que mudaram a memória coletiva italiana a serem salvos pelo Ministério dos bens culturais italiano.

Luiz Chiozzotto
Ensaio do livro de Luiz Chiozzotto sobre o Cinema italiano.
e-mail: chiozzottoit@gmail.com

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Consciência de classe: Aspectos marxistas na precarização do trabalho contemporâneo


Bernard Blier, Renato Salvatori, Marcello Mastroianni em "I compagni" de Mario Monicelli.


CONSCIÊNCIA DE CLASSE: ASPECTOS MARXISTAS NA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO CONTEMPORÂNEO


SANDRA OLIVEIRA MAYER BARROS
MESTRE EM GESTÃO DE ORGANIZAÇÕES E SISTEMAS PÚBLICOS PELA  UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS

Desde o século XIX as sociedade capitalistas vem presenciando metamorfoses que alteraram o modo de ser das relações de trabalho e de consequência, o nexo subjetivo dos trabalhadores em escala global. O sociometabolismo estruturador das relações capital-trabalho que se estrutura pela acumulação de capital e lucro em sua forma máxima aprofundou a apropriação privada da riqueza socialmente gerada e de consequência viu a ofensiva neoliberal (e seu mestre – O Mercado) se esparramar sobre toda a vida do trabalhador.
Com a crise estrutural do capital em 1970, a ofensiva do capital provocou a alteração de seu sistema sociometabólico, que diz respeito ao modo de produção de mais-valia ou modo de subsunção da força de trabalho ao capital (ALVES, 2013). Com a exploração máxima do trabalhador e a fetichização do consumo, ocorreu uma perda da razão social do trabalho, expropriando do trabalhador sua subjetividade fazendo-o desperceber sua condição de proletariedade (ALVES, 2013). Este movimento é denominado pela literatura de reestruturação produtiva do capital ou acumulação flexível[1] que provocou a barbárie social da precarização do trabalho nas ultimas décadas em escala global.
A literatura sociológica que discute as metamorfoses do mundo do trabalho tem tratado a precarização do trabalho como sendo o movimento de desconstrução da relação salarial constituída no período histórico do capitalismo do pós-guerra. Assim, ela teria um sentido objetivo de perda da razão social do trabalho por conta de mudanças na ordem salarial que implicariam na perda (ou corrosão) de direitos do trabalho. Nesse caso, a precarização do trabalho seria entendida como o desmonte de formas reguladas de exploração da força de trabalho como mercadoria. A vigência do novo capitalismo flexível, com o surgimento de novas modalidades de contratação salarial, desregulação da jornada de trabalho e instauração de novos modos da remuneração flexível, seriam consideradas formas de precarização da força de trabalho (ALVES, artigo eletrônico)
A precarização do trabalho ocasiona a perda da razão social do trabalho e esse ciclo limita, ou mesmo extingue, as possibilidades do trabalho se reverter e um instrumento de fazer prosperar a dignidade, a solidariedade e as potencialidades do homem-que-trabalha (FRANCO; DRUCK; SELIGMANN-SILVA, 2010) ou como denominou Antunes (1995) a classe-que-vive-do-trabalho.
Sendo a classe trabalhadora no mundo contemporâneo mais complexa e heterogênea do que aquela existente durante o período de expansão do fordismo, o resgate do sentido de pertencimento de classe (no caso da classe de proletariado hodierno) é questão crucial nesta virada de século (ANTUNES, 2009).
O problema de pesquisa ao qual este estudo pretende discorrer e dialogar compreende analisar as complexidades e adversidades do desenvolvimento da consciência de classe em relações de trabalho precarizadas na sociedade que vive o espírito do toyotismo[2].Almeja-se neste momento contribuir com algumas reflexões críticas sobre a morfologia social do trabalho de cariz precarizado, que surge a partir dos novos locais de trabalho reestruturados sob a ofensiva do capitalismo global.
A investigação será orientada pelos referenciais clássicos e contemporâneos que dialogam sobre as temáticas da reestruturação produtiva do capital através do fordismo e após, da captura da subjetividade traçada pelo toyotismo.
2               REVISITANDO A CONSCIÊNCIA DE CLASSE: DO NOVO PROLETARIADO À “CLASSE PARA SI”
Para Antunes (2009) proletariado hoje ou classe-que-vive-do-trabalho compreende a totalidade dos assalariados, homens mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho e que são despossuídos dos meios de produção[3] - definição marxiniana e marxista. Assim a classe trabalhadora hoje é o proletariado de hoje, não sendo mais somente o operário da época marxista. Este conceitual de proletariado será adotado para fins deste estudo[4].
Desta forma e sob este enfoque atemporal a primazia do proletariado como classe social se justifica posto que é de forma singular a única classe capaz de, sob determinadas condições, ir além da condição de proletariedade, negando, desse modo, a relação-capital (ALVES, 2013)
Contudo, a “condição de proletariedade” não implica na necessária consciência de classe. Isso porque a intensificação dos fetichismos sociais e da mercadoria, ativados pela aguda manipulação do capitalismo tardio imprime obstáculos à formação da consciência de classe necessária e, portanto, à formação da classe social do proletariado; esse processo impede a constituição do sujeito histórico de classe capaz de dar resposta efetiva à miséria de ordem burguesa e de promover a práxis emancipatória no século XXI (ALVES, 2013).
O ser proletariado dentro de uma classe social no sentido pleno de sujeito histórico-coletivo é o sujeito com maior ou menor efetivação e capacidade de produzir um tipo específico de consciência social: a consciência de classe e promover a “negação da negação”, isto é, a negação da condição de proletariedade por meio da constituição processual da consciência de classe e luta de classe (classe social no sentido de sujeito histórico capaz de transformação histórica efetiva) (ALVES, 2013).MF
O proletariado como classe social pressupõe o movimento de classe-em-si para classe-para-si (ou para além-de-si) e, por conseguinte, o movimento da consciência de classe. Em suma, podemos dizer que: a “classe” do proletariado e a “classe” da burguesia são por primazia as classes medulares do modo de produção capitalista. Numa extremidade assenta-se a classe proletária, que contempla os trabalhadores assalariados (produtivos ou improdutivos), desguarnecidos e alheios aos meios de produção. Na outra extremidade da sociedade capitalista encontra-se a burguesia, que contempla os grandes proprietários dos meios de produção, sendo estes os agentes concentradores da riqueza social derivada da exploração dos trabalhadores assalariados, riqueza esta privativamente apropriada por estes capitalistas.
Assim, para Alves (2013, 34):
 o capitalismo global como capitalismo manipulatório nas condições da vigência plena do fetichismo da mercadoria expõe uma contradição crucial entre, por um lado, a universalização da condição de proletariedade e, por outro lado, a obstaculização efetiva da consciência de classe de homens e mulheres que vivem da venda de sua força de trabalho.

Já a definição do conceito de consciência de classe é um tema extremamente complexo e fecundo. Para um avanço heurístico, basta definir para este trabalho consciência de classe como o elo que permite a passagem da classe “em si”, agrupamento com interesses objetivos latentes à classe “para si”, grupo de poder que tente a organizar-se para o conflito ou a luta política, e cujos interesses tornam-se manifesto[5] (STAVENHAGEN, 1970). De forma bastante simplificada o termo engloba crenças e atitudes de um sujeito a respeito de sua classe social ou condição econômica, inclusive quanto aos interesses e à estrutura de sua classe social.
Ainda segundo Lukács (2003) do ponto de vista abstrato e formal, a consciência de classe é, ao mesmo tempo, uma inconsciência, determinada conforme a classe, de sua própria situação econômica, histórica e social, de maneira que a vocação de uma classe para dominação significa que é possível, a partir dos seus interesses e da sua consciência de classe, organizar o conjunto da sociedade conforme seus interesses.MF
Segundo Ataíde essa definição contempla prioritariamente dois carizes essenciais que singularizam a consciência de classe: visão da totalidade da sociedade e ter um projeto para organizá-la conforme seus interesses. Ainda segundo Ataíde (ANO p. 04):
Neste mesmo sentido, ao descrever a formação do proletariado em Miséria da filosofia, Marx afirma, expressando-se em termos hegelianos, que a concentração de um grande número de operários nas grandes fábricas das cidades foi o que primeiramente uniu o proletariado nos primórdios do capitalismo. Mas nessa primeira forma de união o proletariado se constituía apenas como uma classe em si, ou seja, era uma classe em relação ao capital. Mas é necessário que o proletariado se torne uma classe para si mesmo, isto é, que eleve a necessidade econômica de sua luta de classe ao nível de uma vontade consciente, de uma consciência de classe ativa.
Ainda para Ataíde (p. 05):
Na consciência de classe se dá o autoconhecimento do proletariado, o que lhe revela, ao mesmo tempo, toda a estrutura da sociedade capitalista e sua própria missão histórica enquanto classe. Tal consciência se constitui, portanto, como uma unidade dialética indissociável de teoria e prática. É por isso que Lukács afirma que “a combatividade de uma classe é tanto maior quanto melhor for a consciência que ela puder ter na crença de sua própria vocação”, isto é, na sua vocação para dominação, de seu papel e lugar na história.
Proletariado e Consciência e classe são conceitos de certa forma universais e, sob o regime capitalista, se tornam atemporais. Contudo, o capitalismo em suas crises busca se reconstituir através de reestrurações produtivas e a partir da década de 70 a reestruração produtiva do capital alterou o sociometabolismo das relações de trabalho em escala global, afetando de forma significativa a vida do proletariado hodierno. É esta a temática de caráter histórico que será abordado na seção seguinte.
3               RETROCEDENDO NA HISTÓRIA: O SOCIOMETABOLISMO DO CAPITAL E A PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO
O Homem adquire status social com o trabalho, tratando-se do salto ontológico que firma o diálogo entre o homem e a natureza na busca de seus interesses e demandas, sendo este aspecto que diferencia o Homem dos demais seres; o Homem torna-se um ser social pelo trabalho (MARX, 2004). Ainda para Marx (2004) é no trabalho que o Homem adquire humanização. Contudo, no modo de produção capitalista o trabalho se opõe à humanização e desenvolvimento do ser social, sobrepujando o Homem de sua consciência, transmutando-o em um ser alienado e entranhado para com o trabalho (desumanizando, pois, o ser). Esta é a grande contradição do trabalho nas sociedades capitalistas.
Através do fordismo, os trabalhadores puderam conhecer a sociedade do consumo em massa, dando início à fetichização da posse e da mercadoria, causando a expropriação do trabalhador de sua própria existência (BIHR, 1998; ALVES, 2013). Nas condições históricas da grande indústria instaura-se com plenitude a disputa tempo do trabalho estranhado versus “tempo livre” e a produção em massa impõe consumo de massa, transformando o “tempo livre” em tempo de consumo e lazer.
 Para Alves (2013, p. 222):
Com a disseminação intensa e ampliada de formas derivadas de valor na sociedade burguesa hipertardia, o fetichismo da mercadoria e as múltiplas formas de fetichismo social tendem a impregnar as relações humano-sociais, colocando obstáculos efetivos à formação da consciência de classe necessária e, portanto, à formação da classe social do proletariado.

Contudo, os traços caracterizadores do regime de acumulação fordista traziam as sementes de sua própria insustentabilidade e falência; falência essa que ocorreu com intensidade entre o fim dos anos 60 e começo dos anos 70. Para Marcelino (2002, p. 45) “o regime fordista não conseguiu sustentar a contradição visível de que ao mesmo tempo em que tornou o trabalhador o agente direto do processo produtivo, também exigiu dele que participasse apenas com sua capacidade laborativa”. 
A derrocada do fordismo e do keynesianismo evidenciou as contradições intrínsecas ao capitalismo de acumulação e exploração. Os resultados da conjunção de fatores levou o capitalismo à queda das taxas de lucros, dos ganhos de produtividade e aumento dos custos de investimentos e crise da superprodução (HARVEY, 1994; MÉSZÁROS, 2009). Em conjunto com a crise de 1970, houve a emergência do processo de globalização econômica ao final da década de 1980 o gerou um recrudescimento de políticas de cunho neoliberal e o questionamento do papel do Estado (ANTUNES, 2011).
Uma das principais consequências dessa crise estrutural, foi o encadeamento de desregulamentação e flexibilização do processo produtivo, dos mercados e da força de trabalho, orientados por um forte ataque do Estado e do capital conta a classe trabalhadora e suas conquistas de base fordista (ANTUNES, 2009), movimento que passou a ser denominado acumulação flexível.
Para Mészáros (2009), a reestruturação do capital, através da acumulação flexível, através controle social que impôs uma alienação cooptada através de uma intensificação da exploração da mão de obra, desregulamentação dos contratos de trabalho, do processo produtivo e do mercado, o que acabou por majorar a longo prazo, a contradição social fundamental, o conflito entre capital e trabalho.
Harvey (1994) apresenta o novo regime que se instalou a partir do início da década de 1970: a acumulação flexível, que encontrou na experiência japonesa os traços para o novo sistema de produção de mercadorias, que ficou conhecido como toyotismo[6]. A acumulação flexível determinou a necessidade de desregulamentação ampla: flexibilização dos direitos trabalhistas, heterogeneização do mercado de consumo e uso intensivo da terceirização (dentre outras); o novo sistema de produção foi rapidamente incorporado em todos os países de hegemonia econômica capitalista (EUA, Japão e Europa), e na sequência, por outros (MARCELINO, 2002).
No Brasil, mesmo não sendo de primeira ordem do capitalismo mundial, a influência deste fez sentir seus efeitos e segundo Alves (2000) entre 1981 e 1983 começa a se desenhar o toyotismo brasileiro. Com a crise dos anos 80, grandes demissões tornaram muitos trabalhadores terceirizados sob variadas formas e outros tipos de precarização dos vínculos contratuais, como os contratos temporários, terceirizados e em tempo parcial (FRANCO; DRUCK; SELIGMANN-SILVA, 2010) dando início à barbárie da precarização da mão de obra que iria permear as relações de trabalho nas décadas seguintes.
4          REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA DO CAPITAL E PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO: A DESSUBJETIVAÇÃO DE CLASSE
Sob o ponto de vista do trabalhador, o novo regime de relação capital/trabalho proporcionado pela acumulação flexível, buscou a intensificação das condições de exploração da força de trabalho de modo a potencializar o uso de maquinário já disponível e de consequência, aumentar também os lucros. O novo sistema de produção transfigurou a forma de organização do trabalho e as relações entre patrões, trabalhadores e sindicatos. Neste cerne, a acumulação flexível de cariz toyotista inaugurou uma nova etapa da exploração da força de trabalho, através da cooptação psíquica. Com esta dinâmica, ocorreu a precarização e a fragmentação das relações de trabalho, obliterando as possibilidades de consciência de classe do proletariado, obstruindo as relações sociais e desconstituindo/deformando o sujeito histórico do homem-que-trabalha (ALVES, 2013). Esse esvaziamento e enfraquecimento da luta de classes é o desejado pelo capital que imprime em escala mundial uma ação destrutiva contra a força humana de trabalho (ANTUNES, 2009).
Para Alves (2013, p. 86):
a flexibilidade da força de trabalho expressa a necessidade imperiosa de o capital subsumir, ou ainda, submeter e subordinar, o trabalho assalariado à lógica da valorização, através da perpétua sublevação da produção (e reprodução) de mercadorias, inclusive, e principalmente, da força de trabalho. É por isso que a “acumulação flexível” se apoia, principalmente, na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho e ainda, dos produtos e padrões de consumo. É a flexibilidade do trabalho, compreendida como sendo a plena capacidade de o capital tornar domável, complacente e submissa a força de trabalho, que irá caracterizar o “momento predominante” do complexo de reestruturação produtiva.

 Ainda para Alves (2013, p. 134):

A crise da consciência da classe é mais um elemento da precarização do trabalho. O movimento voraz do capital corrói a consciência de classe, contribuindo, desse modo, para a fragmentação/invisibilização da classe do trabalho. (Grifo da autora)

Para Alves (2000) e Marcelino (2002), a expansão do capital e a desintegração da trajetória de subjetividade causada pela precarização da mão de obra provocaram a fragmentação do suporte material do trabalhador coletivo e das lutas operárias. Essa descentralização produtiva favorece o esmigalhamento desse trabalhador coletivo e se coloca como obstáculo à construção de uma consciência da classe e do trabalhador (FRANCO; DRUCK; SELIGMANN-SILVA, 2010), causando uma barbárie para a materialidade e subjetividade dos trabalhadores.
A precarização abala e esmorece a organização dos trabalhadores, transfigurando a base objetiva da luta de classes e capturando a subjetividade do trabalhador (MARCELINO, 2002, ALVES, 2013). Outrossim, o processo de precarização ocasionado pela flexibilização das relações de trabalho imprimi em escala mundial um enfraquecimento da dinâmica de estruturação das identidades individual e coletiva, importando no desencadeamento da alienação e do estranhamento do trabalho (ANTUNES, 2009). Para Alves (2010, p. 02) precariedade laboral acarreta:
a deformação de sujeitos humano-genéricos, aprofundando, deste modo, a auto-alienação do homem que trabalha com a redução da vida pessoal à mero trabalho assalariado. Por outro lado, a incerteza e instabilidade das novas modalidades de contratação salarial e a vigência da remuneração flexível alteram, do mesmo modo, a troca metabólica entre o homem e os outros homens (a dimensão da sociabilidade); e entre o homem e si-próprio (a dimensão da auto-referência pessoal). Deste modo, a precarização do trabalho e a precarização do homem que trabalho implicam a abertura de uma tríplice crise da subjetividade humana: a crise da vida pessoal, a crise de sociabilidade e a crise de auto-referência pessoal.

Neste sentido Alves (2010, p.12) exemplifica:
(...) a adoção da lean production ou “empresa enxuta” significa a obnubilização do “trabalhador social” no plano da consciência contingente de operários e empregados por meio da reestruturação do “trabalhador coletivo” do capital. A fragmentação da classe dos trabalhadores assalariados, no sentido da fragilização (ou flexibilização) dos laços contratuais, opera um processo de dessolidarização com impactos diruptivo na formação da consciência de classe contingente e necessária.

Importa neste momento ressaltar que a precarização do trabalho ocasiona um processo que Alves (2013) denomina de dessubjetivação de classe. Esta dessubjetivação faz parte do pacote de medidas ofensivas do capital, de cariz toyotista, que buscam o domínio da psique do trabalhador, o que ocasiona um desmonte da consciência social do trabalhador, obstacularizando a formação da consciência de classe.
Ilustrando este cenário, Alves discorre formas pontuais de dessubjetivação do trabalhador (2013, p. 94):
os intensos processos de reestruturação produtiva que ocorreram nas grandes empresas capitalistas, principalmente a partir de meados da década de 1970; ou na política, com as experiências históricas de derrotas sindicais e políticas da classe operária nos últimos trinta anos. Enfim, derrotas históricas do trabalho no processo de luta de classes levaram, como resultado irremediável, a intensos processos sociais de dessubjetivação de classe.

Outro elemento de suma importante que se pode identificar no movimento de reestruturação produtiva dos últimos 30 anos aliado ao neoliberalismo global (que provocou a precarização do trabalho) é a apologia ao individualismo da vida, com sua gama de praticas anti-coletivistas, esvaziando e fragmentando o discurso sindical e a memória de luta da classe.
Neste sentido para Alves (2010, p. 11):
No contexto histórico da economia, política e cultura neoliberal, buscou-se restringir e eliminar o desenvolvimento da consciência de classe e da luta de classes. No habitat da consciência social, a consciência de classe é uma espécie em extinção. Nos locais de trabalho reestruturados, salienta-se a presença da individualização das relações de trabalho e a descoletivização das relações salariais. A crise do Direito do Trabalho, que se interverte em Direito Civil, é um exemplo da individualização e descoletivização das relações de trabalho na sociedade salarial.

A dessubjetivação provoca uma degradação dos imperativos coletivistas da classe dos trabalhadores. Trata-se do vangloriamento do ethos do individualismo que impregna a sociedade civil neoliberal em prejuízo do ethos da solidariedade de classe (ALVES, 2013).
Como já se sabe, o home é um ser social, ou seja, ele interage com outros Homens na busca de atendimento de suas necessidades comuns. Uma vez que a subjetividade coletivista do Homem que vive sob os auspícios do espírito toyotista de cariz neoliberal sofre uma degradação, sua capacidade de se relacionar com outros da mesma espécie em busca do coletivo comum, também se dissipa.
E é justamente isso que a acumulação flexível busca, a dissolução do coletivo, com vistas a obliterar o desenvolvimento da consciência de classe. A precarização do trabalho ocasionada pelo espírito toyotista traça seus efeitos não somente nas relações de trabalho, mas na subjetividade coletivista do homem-que-trabalha. É sobre essa temática que se deterá a próxima seção.
5  O ETHOS INDIVIDUALISTA SOB OS AUSPÍCIOS DA ACUMULAÇÃO FLEXÍVEL NEOLIBERAL: O OLHO QUE TUDO VÊ
Sob o espírito do toyotismo, presencia-se o esvaziamento do discurso do conflito ou luta de classes. Prega-se uma atitude colaboradora dos membros da equipe de trabalho, que maquia o escopo de envolver o trabalhador no ideais da empresa
A ideia de gestão de pessoas implica disseminar valores, sonhos, expectativas e aspirações que emulem o trabalho flexível. Não se trata apenas de administrar recursos humanos, mas sim, de manipular talentos humanos, no sentido de cultivar o envolvimento de cada um com os ideais (e ideias) da empresa. Na verdade, altera-se o modo de ser do trabalhador assalariado e seu nexo psicofísico com a produção do capital, ampliando-se, como inovação sociometabólica do capital, a “captura” da subjetividade do trabalho pelos valores empresariais.
Neste sentido para Alves (2013, p.93):
Portanto, podemos caracterizar a nova morfologia social do trabalho por dinâmicas psicossociais que implicam a dessubjetivação de classe, “captura” da subjetividade do trabalhador assalariado e redução do trabalho vivo a força de trabalho como mercadoria.

O espírito toyotista como agente desestruturador da subjetividade coletiva do trabalhador ganha destaque através do controle ativo dos trabalhadores por meio de células: neste sistema os trabalhadores são separados por equipes; cada uma das equipes é encarregada de cumprir uma meta preestabelecida pelos gerentes. Contudo, o tempo é escasso para tal atividade, o que faz com que o trabalhador se concentre integralmente à sua célula de trabalho, impedindo sua solidariedade coletiva.
Verifica-se no toyotismo um processo de autoexploração, em que a equipe age de forma gerencial e supervisora, controlando e fiscalizando individualmente cada trabalhador (PINTO, 2010). Todos os trabalhadores tem que dar sua total energia, senão serão julgados pelos próprios colegas, que exercerão controle minucioso de uns sobre os outros. Não há necessidade um supervisor em função exclusiva, pois um trabalhador controla e vigia o outro. Tal sistema é nefasto para a constituição de coletividades entre os trabalhadores e minam as chances de desenvolvimento de uma consciência de classe. Assim, coloca-se toda a responsabilidade da produção na figura do trabalhador, que passa a ver os colegas como seu fiscal, juiz e carrasco.
Premiações e gratificações para o cumprimento de metas criam no ambiente de trabalho uma pseudo-colaboração, que acirra ainda mais a precarização do trabalho, o individualismo e a ausência de consciência de classe.
Este aspecto do toyotismo, de criar uma ilusão em torno das equipes e do controle de qualidade torna cada trabalhador o fiscal de todos os outros. Percebe-se então o caráter panóptico que o sistema exerce sobre o indivíduo-trabalhador. De forma feliz Alves (2011) fez alusão ao instrumento de vigia de Jeremy Bentham e julgamos oportuno resgatar a ideia do “olho que a tudo vê”. O panóptico de Bentham é uma estrutura que, dentro do ambiente organizacional, permite uma inspeção constante dos sujeitos nas instituições disciplinares (ver sem ser visto). A ideia do panóptico pode ser utilizada de forma bastante oportuna quando de trata de captar o espírito toyotista. O método toyotista imprime uma carga de tensão pelo fato de todos os operários serem vigias de si mesmos e dos outros. Exemplo são as produções onde os operários devem apontar os defeitos dos produtos que passam pela sessão anterior à sua. Cada um torna-se supervisor do outro.
O panóptico de Bentham também é referenciado na obra Vigiar e Punir de Michel Foucalt (XXX). Podemos de forma acertada buscar trechos na referida obra em que o espírito do toyotismo ganha ilustração contemporânea como instrumento de controle, vigilância e dominação.
Percebe-se aqui a presença de uma das ferramentas toyotistas: o Círculo de Controle de Qualidade (CCQ). Esta dinâmica promove a reunião de grupos de trabalhadores, com o intuito de debater a qualidade do trabalho em equipe por eles desenvolvido e buscar estratégias para a melhoria da produtividade e rendimento. Trata-se de mais uma medida individualista em prejuízo do coletivismo entre os trabalhadores. Os CCQ visam internalizar nos trabalhadores um ritmo obrigatório, em que o controle é exercido pelos próprios colegas. Vejamos em Vigiar e Punir a receita deste controle, descrito de forma cabível para o espírito toyotista:
(...)mais que um ritmo coletivo e obrigatório, imposto do exterior; é um  “programa”; ele realiza a elaboração do próprio ato; controla do interior seu desenrolar e suas fases (Vigiar a Punir, p. 178).

No tocante ao processo de vigilância de um trabalhador sobre o outro, vemos o mesmo processo em Vigiar e Punir (que neste momento introduz a ideia do Panóptico):

Vejamos nestes trechos de Vigiar e Punir todo o espírito do Toyotismo e o que importa concluir neste momento é que este espírito mina as possibilidades de conjunções de vontade coletivas, essenciais para o desenvolvimento da consciência de classe.
6  CONSIDERAÇÕES FINAIS
A organização social e política dos trabalhadores se efetiva hoje como a forma fundamental de luta contra a precarização do trabalho e de sua subjetividade. Somente com práticas de resistências é que se poderá ver aflorar traços, ainda que rudimentares de desenvolvimento de consciência social capaz de levar ao desabrochar da consciência de classe. Como explana Alves (2013, p. 219):
A verdadeira crise do nosso tempo histórico não é a crise das economias capitalistas, mas sim a crise do homem como sujeito histórico de classe, isto é, ser humano-genérico capaz de dar respostas radicais à crise estrutural do sociometabolismo do capital em suas múltiplas dimensões

Lamentavelmente o cenário não inspira otimismo para a classe trabalhadora refém da ofensiva neoliberal de cariz toyotista. A classe do precariado não consegue se organizar e mantém seu caráter fragmentado, com uma fraca representação sindical, impedindo a passagem da classe em-si para a classe para-si, comprometendo em última instância a luta de classes e o desenvolvimento da consciência de classe.
A grande barreira imposta pela precarização do trabalho de cariz toyotista é o ataque à solidariedade coletiva do trabalhador, impulsionando a dominação ideológica da classe-que-vive-do-trabalho.
No início deste trabalho retomamos Marx e sua teoria do ser social, que se desenvolve e se sociabiliza através de trabalho. No cenário contemporâneo, de relações de trabalho fragmentadas e inseguras, a emancipação humana só poderá ser obtida com a reflexão de cada trabalhador no sentido de se identificar como classe do proletariado e resgatar esse pertencimento.
Somente com essa conscientização é que o proletariado poderá produzir um tipo específico de consciência social: “a consciência de classe e promover a “negação da negação”, isto é, a negação da condição de proletariedade por meio da constituição processual da consciência de classe e luta de classe” (ALVES, 2013, p. 69).
Tragicamente a estrutura sindical[7], que deveria conduzir os atos e consciências no sentido do despertar político e social se cala e se mostra incapaz de desenvolver coalizões de forças, com raras exceções. O enfraquecimento sindical demonstra que este não conseguiu se valer de estratégias à altura da ofensiva neoliberal toyotista e seu sociometabolismo de barbárie social.
Outros catalizadores de luta são os movimentos sociais, organizações de classe e partidos políticos que buscam a preservação e ampliação dos direitos dos trabalhadores e há que se considerar ainda a Justiça do Trabalho. Contudo, como em todos os nichos da sociedade, todos estes agentes estão sujeitos à influência política e social externos e por isso seus posicionamentos devem sempre ser avaliados.
Em especial no Brasil, com o governo Temer, o pacote de privatizações e de medidas neoliberais visando ampliar o lucro da classe burguesa só faz firmar a tendência ao desmonte dos direitos dos trabalhadores e a precarização da classe-que-vive-do-trabalho.
O espírito toyotista arruina as possibilidade do indivíduo enquanto classe desenvolver sua consciência, posto que prega uma cultura de exacerbação do individualismo em prejuízo das forma de solidariedade e de atuação coletiva e social (ANTUNES, 2009, p. 50. Com este cenário, ocorre a destruição do sindicalismo de classe e sua conversão num sindicalismo dócil, de parceria, ou mesmo em um sindicalismo de empresa (2009, p. 55).
Somente com debates teóricos e análises de experiências empíricas será possível vislumbrar mecanismos de assumir as rédeas do controle social impregnado pela lógica da valorização do valor e do mercado. Impedir que os trabalhadores precarizados fiquem à margem das formas de organização social e política de classe um desafio imperioso no mundo contemporâneo (ANTUNES, 2011). MF
Por fim, cumpre retomar Marx e buscar sempre seu legado, como a teoria das classes, em que externa o funcionamento da luta de classes e expõe a exploração do Homem (como classe) pelo Homem (como classe), concluindo que a classe trabalhadora é a única que pode por fim às mazelas desta exploração e fazer aflorar a consciência de classe.

Sandra Oliveira Mayer Barros



REFERÊNCIAS

ALVES, Giovanni. O novo (e precário) mundo do trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.
______. Dimensões da Precarização: Ensaios de sociologia do trabalho. Bauru: Editora Praxis, 2013.
______. Trabalho, subjetividade e capitalismo manipulatório - O novo metabolismo social do trabalho e a precarização do homem que trabalha. Revista Estudos do Trabalho, Ano, v. 5, 2010.
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho?: Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Campinas – São Paulo: Cortez, 1995.
______. Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial, 2009.
______. O continente do labor. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
OLIVEIRA, Sandro Barbosa de. Sobre a consciência de classe. Sociologia (São Paulo. 2006), v. 1, p. 68-74, 2015.
BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. 1. ed.
Rio de Janeiro: ZAHAR, 2009.
BIHR, Alain. Da grande noite à alternativa: o movimento operário europeu em crise São Paulo: Boitempo Editorial, 1998.
FRANCO, Tânia; DRUCK, Maria da Graça; SELIGMANN-SILVA, Edith, As novas relações de trabalho, o desgaste mental do trabalhador e os transtornos mentais no trabalho precarizado. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 35, n. 122, p. 229-248, 2010.
HARVEY, David; Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Edições Loyola, 1994.
______. O enigma do capital e as crises do capitalismo, São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
LUKÁCS, Georg. História e Consciência de classe: Estudos sobre a dialética Marxista. Martins Fontes: São Paulo, 2003.
______. Para uma ontologia do ser social I, São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.
MARCELINO, Paula Regina Pereira. A lógica da precarização: terceirização do trabalho na Honda do Brasil. Dissertação de Mestrado. Universidade de Campinas. 2002.
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política, livro I: O processo de produção do capital. Boitempo Editorial, 2013.
______. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.
______.  A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
MÉSZÁROS, István. A crise estrutural do capital, São Paulo: Boitempo Editorial, 2009.
PINTO, Geraldo Augusto. A organização do trabalho no século 20: Taylorismo, Fordismo
e Toyotismo. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010.
STAVENHAGEN, Rodolfo. Las Clases sociales em las sociedades agrarias (Cap. 2: Clases sociales y estratificación), Siglo Veintuno Editores S.A., México, 1970 (17 ed.) pp. 20-46. Versão eletrônica adquirida pelo Google Books.


[1] Para Bauman (2009, p. 35) flexibilidade é a plavra de ordem das novas relações precarizadas. É um termo aplicado ao mercado de trabalho, implicando no fim do emprego regular; a sociedade do trabalho passa a contar com contratos de curto prazo, contratos precários ou sem contratos, cargos sem estabilidade e com clausula de “até novo aviso”.
[2] Toyotismo aqui é usado no sentido de paradigma, não apenas no sentifo de sistema de engenharia de produção japonesa, mas no sentido de sistema de amalgamento de (ver livro Giovanni)
[3] Antunes (2009) discorre com profusão sobre o conceito de proletariado e envolve no conceito hodierno de proletariado tanto os trabalhadores produtivos como os improdutivos.
[4] Adota-se este conceito, apesar da renúncia que importantes autores e pesquisadores sociais fizeram da utilização de conceitos como “classe social”, “proletariado” ou mesmo “capitalismo”, pois para muitos deles nada existe para além desse modo de organizar a produção social (o capitalismo), o que percebemos, pelo contrário, é a ampliação, num patamar universal, do que denominamos de “condição de proletariedade” e de vigência plena do modo de produção de mercadorias (ALVES, 2013, p. 39)
[5] A tomada de consciência de classe e a transformação da “classe em si” em “classe para si” são uma dos mais complexos e delicados problemas da teoria das classes. Marx, Lukács, Dahrendorf, Parsons e Merton são autores referência para o estudo de consciência de classe.
[6] Toyotismo aqui é referenciado como a “ideologia orgânica” do novo complexo de reestruturação produtiva do capital que encontra nas novas tecnologias da informação e comunicação e no sociometabolismo da barbárie, a materialidade sociotécnica (e psicossocial) adequada à nova produção de mercadorias. Trata-se do espírito do Toyotismo.
[7] Sobre o sindicalismo, sua crise e seus limites recomenda-se a leitura do dossier “Movimento Operário e
Sindical” Revista São Paulo em Perspectiva. SEADE, Vol. 12. Nº1.1998.

(Conteúdo publicado originalmente na XV Semana de Pós-graduação das Ciências Sociais da UNESP de Araraquara em 2016)