quinta-feira, 30 de junho de 2016

Salvaguardar nossa cultura é manter unida a nação



Luigi Chiozzotto


"A verdadeira terra dos bárbaros não é aquela que nunca conheceu a arte, mas que, repleta de obras-primas, não pode nem apreciar nem mantê-las" Marcel Proust. 

Esse pensamento abarca diversas questões sobre cidadania, pois ser cidadão não é só ter deveres e direitos, pois dentre os deveres de um cidadão está também o de apontar os descaminhos de um povo a fim de que sejam corrigidos por aqueles que fazem reflexão a respeito, os intelectuais, os cientistas, os filosofos 
por exemplo; pois os trabalhadores estando quase sempre ocupados de mais com com os prazos da linha de produção, ineptos com a construção da “mais valia”, com os carnês à pagar e sobretudo com o alimento imediato de sua prole não tem tempo nem preparo para questionar isso ou aquilo de nossa cultura.  Um pequeno exemplo disso, que pode passar desapercebido por qualquer um menos observador é o de não ter opções de filmes diferentes daqueles americanos numa cidade, ou institutos de pesquisa cientifica, só para citar dois. Cidades de origem industrial do interior de São Paulo que no decurso de sua história formou massa de operários e que aceitarem dedicar-se exclusivamente à produção de bens de consumo e fornecer a sua força de trabalho. Esses cidadãos delegaram aos politicos e governantes o poder de decisões que abarcam questões de administração da cidade, políticos esses do bem e do mal que destinaram recursos ora para a saúde, ora para educação e quase nunca para a cultura.  E não termos um filme, um artesanato, um livro, uma pesquisa cientifica feita por nossos cidadãos em nossas próprias cidades aponta para o fato de que perdemos o contato com o que há de mais refinado em nosso povo, o seu conhecimento, seja este oriundo de seu intelecto, seja aquele que é aprendido e repetido de seus antepassados, aponta para o fato que perdemos contato com nossa própria cultura, com nossa criatividade, Se ignorarmos essa questão e não produzirmos cultura (livros, filmes, musica, artesanato, etc), e tão pouco preservarmos e valorizarmoos o que já produzimos estamos nos atrasando em relação a outros povos e suas culturas, Mas pior do que isso é não perceber isso acontecendo, é não encontrar espaços para exibir o pensamento e a arte de nossos cidadãos porque o espaço e o tempo estão destinados as produções de culturas externas, no caso do cinema nacional, a forte presença dos filmes americanos no país, seja nos cinemas que em aluguel e venda de dvds e a fins, formando uma espécie de corrente onde todos os gomos estão interligados e não nos permite inserir nosso pensamento, uma corrente que por fim nos aprisiona no pensamento de uma outra cultura externa. Se não acordarmos para esses fatos os bárbaros destruíram a arte de nossa civilização com sua pseudo-cultura ou pela falta da prática pelo nosso povo e nós não nos reconheceremos mais como uma unidade, como uma nação. Além disso a ignorância de um povo tem também origem na condução que é dada pelos seus governantes quando ao retirarem da cultura e da educação a sua importância e o seu valor, tornam o povo ignorante e, sobretudo afascinados pela mercadoria que produzem e que depois devem consumir, subservientes aos comandos dos manipuladores da verdade. Quando essa ignorância nos reduz a reclamar apenas de necessidades básicas do "ter", e nos acuamos e ou nos intimidamos em apontar necessidades mais refinadas, do "ser", percebemos o quanto embrutecemos nosso espirito.

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A influência da fotografia de retrato na estética do cinema italiano dos anos 50'



Luigi Chiozzotto  

O Cinema italiano teve importante contribuição da fotografia de retrato, em particular a de Arturo Ghergo, para a consolidação como o maior Cinema do mundo entre as décadas de 50' e 70'. O interessante do ponto de vista do cinema italiano é que a estética das imagens de Arturo Ghergo foi além da fotografia, tendo Arturo Ghergo especial importância e contribuição para o nascimento do cinema italiano, incluindo o seu nome na história da Itália ao lado de Giovanni Pastrone, Carmine Gallone e posteriormente Roberto Rossellini, o qual colaborou de forma indireta com as estratégias de consolidação e domínio através de um cinema forte na Europa idealizado por Benito Mussolini. Em 1937, por ordem do Dulce foi construído na então periferia de Roma, a Cinecittà, um dos maiores estúdios de cinema já feitos, a fim de inserir o cinema italiano na competição global por bons filmes. Por conta disso produtoras italianas da época como Titanus, La Cine criavam demandas para um tipo particular de fotografia, que teve implicação direta no feitiche de seus produtos, Atrizes e Atores, transformando em verdadeiros astros e estrelas os protagonistas de seus filmes. Aproveitando-se de todo um aparato visual composto de técnicas de iluminação e maquiagem, aqueles fotógrafos retratistas transformam em semideuses Atores e Atrizes, intitulados no meio como "Divos", suas fotos eram utilizadas estrategicamente de maneira muito glamourosa em publicidade antes do lançamento dos filmes. Pouquíssimos eram os fotógrafos que dominavam com perfeição aquela técnica que combinava fotografia e pintura, dentre eles Arturo Ghergo que no início dos anos 30 já possuía um estúdio fotográfico funcionando na rua Condotti, 61, em Roma, e muito requisitado particularmente pelos aspirantes ao estrelato. Também outros fotógrafos contribuíram para o glamour desses anos como o Elio Luxardo, italiano, nascido em Sorocaba e emigrado para Itália, além de outros como Arturo Bragaglia, Manlio Villoresi e Pasquale De Antonis. Décadas depois, em 1991 teve início em Roma, em via Bocca di Leone, no Studio Ghergo, um trabalho de recuperação de negativos em grande formato, 18x24 cm, contendo imagens de muitos Atores e Atrizes do cinema italiano do pós Guerra, fotografados pelo fotografo italiano Arturo Ghergo, Montefano - AN (1901-1959), entre as décadas de 1930 e 1950. Partindo de uma ideia original de Cristina Ghergo, fotógrafa e filha de Arturo Ghergo. Este trabalho teve também como colaboradores Antonio Bosco, Ampliador de Cristina Ghergo e Luigi Chiozzotto (editor desta página), Assistente de Cristina entre 1992 e 1993, e que nos intervalos de seus afazeres no estúdio, identificavam, selecionavam e arquivavam centenas de imagens de figuras ilustres da política, da sociedade, da igreja, do teatro e do cinema italiano, dentre elas, fazia parte desse valioso acervo estrelas como Alida Valli, Sofia Loren, Gina Lolobridgida, Silvana Mangano, Monica Vitti, Amedeo Nazzari, Massimo Girotti, Vittorio Gassman. Esse projeto culminou numa mostra intitulada “Arturo Ghergo - Fotografie 1930-1959 “ realizada no Palazzo delle Esposizioni, em Roma, em 2012, com cura de Claudio Domini e Cristina Ghergo, o qual foi um sucesso. 

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Michelangelo Antonioni, experiência direta com o poder da significação da imagem




Luigi Chiozzotto

Michelangelo Antonioni soube como nenhum outro Cineasta compreender e expressar com tamanha sensibilidade e pela linguagem cinematográfica, a dificuldade de comunicação entre os seres humanos no mundo de hoje, não obstante tantos dispositivos criados para estabelecer contato entre os seres. Por isso Antonioni é conhecido pelo epíteto de “cineasta da incomunicabilidade” e com distinta razão e atualidade. Embora no início de sua carreira Antonioni tenha perseguido os passos do neorrealismo, sobretudo em seus primeiros documentários, “Gente del Po” (1947), por exemplo; já em seu primeiro filme de ficção "Cronaca di un amore" - Crimes da Alma (1950), já se nota sua ruptura com os cânones do movimento percebendo-se seu efeito apenas no nível interior dos personagens, interpretados brilhantemente por Massimo Girotti e pela estreante, e a época ainda não Atriz, Lucia Bosè. Seus filmes posteriores invadem o espaço psicológico de sua geração, em especial aquele representado pela burguesia italiana. Com “Il Grido” – O Grito (1957); Michelangelo explora a questão do estranhamento do ser em meio a um mundo materialista, mesquinho, onde ele persegue os caminhos de um homem abandonado pela amada e que não encontra mais lugar no mundo sem ela. O filme embora rico em elementos inovadores do ponto de vista psicológico e de linguagem cinematográfica, deixa a desejar na construção do personagem “Aldo” (Steve Cochran), que por pertencer a um mundo proletário e consequentemente condicionado a cadeia de produção, mostra-se estranhamente rebelde ao abandonar sua vida segura para com sua filha pequena aventurar-se pelo país. Talvez tenha sido esse o motivo de o público não aceitá-lo, por não ter se identificado, e a crítica tê-lo rejeitado, fazendo com que Antonioni revesse sua trajetória cinematográfica para os anos seguintes. Uma experiência direta com o poder da significação da imagem aconteceu comigo quando retornava de carro com meus primos de Arezzo para a casa deles em Subbiamo, fazendo-me entender com significativa clareza a postura do enquadramento e a perseguição dos detalhes no trabalho de Michelangelo Antonioni. No caminho entre essas duas cidades existe uma capela com um afresco de Piero Della Francesca iluminado por uma luz difusa vinda do alto das janelas, sob um ambiente que inspira a contemplação. Antes daquela imagem ser pintada ali havia uma parede branca que fora inundada por cores e incorporada de linhas que se cruzam e que contam uma história. Os elementos pictóricos ali distribuídos de maneira a representar um momento da vida do homem viajaram no tempo nos emocionando sobremaneira mesmo após três séculos. Os humanos, por assim dizer, que estão representados na tela, nada falam, a imagem não emite som algum, no entanto, a impressão que se tem é de ouvir os ruídos daquele momento. Transferindo essa sensação para a tela branca do cinema, onde é projetada a imagem, em particular num filme de Michelangelo Antonioni, o que percebemos é algo semelhante; os elementos distribuídos em cena, objetos, personagens, iluminação, tudo faz com que o som, ou o simples pronunciamento de palavras seja mera convenção, um adorno para suportar a significação da imagem, uma espécie de moldura dourada em torno a um quadro. Para mim a cinematografia de Antonioni representa um estudo da evolução do olhar humano através dos meios de captação de imagem de nosso tempo, assim como Piero Della Francesca observou o seu mundo através de uma perspectiva representação tridimensional que possibilitava dar a ilusão da espessura e da profundidade, revolucionando a pintura moderna, Antonioni o faz no fotograma, e com uma abordagem poética, singular, emocionante, revolucionando ao seu modo o cinema mundial. Mas sua relação com a pintura não é exatamente aquela de Piero Della Francesca o qual citei como exemplo de comparativo para falar de um Cineasta que busca uma linguagem estética mais elevada, mas sim a citação de artistas plásticos contemporâneos. Nos filmes de Antonioni há por exemplo Filippo de Pisis, Giorgio De Chirico, Giorgio Morandi, Pollock, Rothko entre outros.

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domingo, 26 de junho de 2016

As armas norte americanas sendo descarregadas na tela dos cinemas



Luigi Chiozzotto

Quase entramos em pânico dentro de uma locadora quando percebemos quanto tempo de história com armas e violência de todo tipo ajudamos a promover no decurso desses 30 anos. Além do que mais de 90% seguramente foram de filmes norte americanos, cujo conteúdo continha pólvora encapsulada, não quero com isso acusar esse país por tal conteúdo, já que Hollywood produziu diversos gêneros e muitos cineastas americanos são verdadeiramente geniais. Estamos diante de um marketing americano agressivo, que deixa pouco espaço para outras culturas nos cinemas, depois reclamamos de estarmos sendo manipulados pelos EUA para levar adiante golpes de estado, fomos construindo-lhes o caminho em resenhas, artigos e críticas desde então. Não há espaço que não esteja ocupado nas prateleiras do mundo pelo cinema norte americano, bom ou mal a humanidade já tem uma enorme quantidade de neurônios de sua psique ocupado pela invasão norte americana, consumá-la de fato em um novo golpe no Brasil foi apenas um passo. Do outro lado do oceano a Itália é um dos únicos países da Europa que não fez uma revolução, todavia com o cinema político dos anos 70 realiza a maior delas, tão forte como uma revolução de rua, pois no decurso do tempo é possível revivê-la através de seus filmes, mas eles não estão nas locadoras. Aos brasileiros essa experiência serve de referência pois estamos sempre vivendo o crepúsculo desses tempos. Há alguns dias fui ao Shopping levar meu filho para mostrar-lhe o que é um filme italiano, mostrar-lhe a diversidade de línguas no cinema, francesa, espanhola, russa etc, que esses filmes existem de verdade, embora não passem no cinema, na TV à cabo e não tenha nas locadoras para alugar. Ele aos 5 anos de idade já questiona o idioma dos filmes que consegue assistir (inglês). Quando cheguei à Livraria Saraiva fui ao setor de dvd's e blu-ray, queria mostrar-lhe que existe também filmes que não são americanos no mundo, que existe os europeus por exemplo, afinal desde pequeno falo em italiano com ele e algumas vezes ele me assiste dando aulas de italiano para alguns alunos criança que frequentam meus cursos. Depois de 5 minutos procurando entre os mais de 5 mil títulos finalmente encontramos dois filmes europeus, um dvd em italiano, ótimo por sinal, de Federico Fellini - 8 e mezzo (1963), e um francês em blu-ray - Jules e Jim - Uma Mulher para Dois (1962), de François Truffaut, também ótimo. Fiquei muito chateado em confronto com meu filho que sempre ouviu eu falar de cinema italiano com ele, chamei um vendedor e perguntei se havia outros títulos europeus ali na loja e ele me respondeu que não pois nunca pedem outros filmes que não americanos. Fomos embora e assistimos em casa uma cópia que tenho de "Divorzio à italiana" de Pietro Germi, com Stefania Sandrelli e Marcello Mastroianni e rimos bastante dessa genial e genuína comédia à italiana. 


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