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| Bernard Blier, Renato Salvatori, Marcello Mastroianni em "I compagni" de Mario Monicelli. |
CONSCIÊNCIA DE CLASSE: ASPECTOS MARXISTAS NA PRECARIZAÇÃO DO
TRABALHO CONTEMPORÂNEO
SANDRA OLIVEIRA MAYER BARROS
MESTRE EM GESTÃO DE ORGANIZAÇÕES E SISTEMAS PÚBLICOS
PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS
Desde o século XIX as sociedade
capitalistas vem presenciando metamorfoses que alteraram o modo de ser das
relações de trabalho e de consequência, o nexo subjetivo dos trabalhadores em
escala global. O sociometabolismo estruturador das relações capital-trabalho
que se estrutura pela acumulação de capital e lucro em sua forma máxima aprofundou
a apropriação privada da riqueza socialmente gerada e de consequência viu a
ofensiva neoliberal (e seu mestre – O Mercado) se esparramar sobre toda a vida
do trabalhador.
Com a crise estrutural do capital em
1970, a ofensiva do capital provocou a alteração de seu sistema
sociometabólico, que diz respeito ao modo de produção de mais-valia ou modo de
subsunção da força de trabalho ao capital (ALVES, 2013). Com a exploração
máxima do trabalhador e a fetichização do consumo, ocorreu uma perda da razão
social do trabalho, expropriando do trabalhador sua subjetividade fazendo-o
desperceber sua condição de proletariedade (ALVES, 2013). Este movimento é
denominado pela literatura de reestruturação produtiva do capital ou acumulação
flexível[1]
que provocou a barbárie social da precarização do trabalho nas ultimas décadas
em escala global.
A literatura sociológica que discute as metamorfoses do
mundo do trabalho tem tratado a precarização do trabalho como sendo o movimento
de desconstrução da relação salarial constituída no período histórico do
capitalismo do pós-guerra. Assim, ela teria um sentido objetivo de perda da
razão social do trabalho por conta de mudanças na ordem salarial que implicariam
na perda (ou corrosão) de direitos do trabalho. Nesse caso, a precarização do
trabalho seria entendida como o desmonte de formas reguladas de exploração da
força de trabalho como mercadoria. A vigência do novo capitalismo flexível, com
o surgimento de novas modalidades de contratação salarial, desregulação da
jornada de trabalho e instauração de novos modos da remuneração flexível,
seriam consideradas formas de precarização da força de trabalho (ALVES, artigo
eletrônico)
A precarização do trabalho ocasiona a perda da razão social do
trabalho e esse ciclo limita, ou mesmo extingue, as possibilidades do trabalho
se reverter e um instrumento de fazer prosperar a dignidade, a solidariedade e
as potencialidades do homem-que-trabalha
(FRANCO;
DRUCK; SELIGMANN-SILVA, 2010) ou como denominou Antunes (1995) a classe-que-vive-do-trabalho.
Sendo
a classe trabalhadora no mundo contemporâneo mais complexa e heterogênea do que
aquela existente durante o período de expansão do fordismo, o resgate do
sentido de pertencimento de classe (no caso da classe de proletariado hodierno)
é questão crucial nesta virada de século (ANTUNES, 2009).
O
problema de pesquisa ao qual este estudo pretende discorrer e dialogar
compreende analisar as complexidades e adversidades do desenvolvimento da
consciência de classe em relações de trabalho precarizadas na sociedade que
vive o espírito do toyotismo[2].Almeja-se
neste momento contribuir
com algumas reflexões críticas sobre a morfologia social do trabalho de cariz
precarizado, que surge a partir dos novos locais de trabalho reestruturados sob
a ofensiva do capitalismo global.
A investigação será orientada pelos
referenciais clássicos e contemporâneos que dialogam sobre as temáticas da reestruturação produtiva
do capital através do fordismo e após, da captura da subjetividade traçada pelo
toyotismo.
2
REVISITANDO A
CONSCIÊNCIA DE CLASSE: DO NOVO PROLETARIADO À “CLASSE PARA SI”
Para Antunes (2009) proletariado hoje ou
classe-que-vive-do-trabalho
compreende a totalidade dos assalariados, homens mulheres que vivem da venda de
sua força de trabalho e que são despossuídos dos meios de produção[3]
- definição marxiniana e marxista. Assim a classe trabalhadora hoje é o
proletariado de hoje, não sendo mais somente o operário da época marxista. Este
conceitual de proletariado será adotado para fins deste estudo[4].
Desta forma e sob este enfoque atemporal
a primazia do proletariado como classe social se justifica posto que é de forma
singular a única classe capaz de, sob determinadas condições, ir além da
condição de proletariedade, negando, desse modo, a relação-capital (ALVES,
2013)
Contudo, a “condição de proletariedade”
não implica na necessária consciência de classe. Isso porque a intensificação
dos fetichismos sociais e da mercadoria, ativados pela aguda manipulação do
capitalismo tardio imprime obstáculos à formação da consciência de classe
necessária e, portanto, à formação da classe social do proletariado; esse
processo impede a constituição do sujeito histórico de classe capaz de dar
resposta efetiva à miséria de ordem burguesa e de promover a práxis
emancipatória no século XXI (ALVES, 2013).
O ser proletariado dentro de uma classe
social no sentido pleno de sujeito histórico-coletivo é o sujeito com maior ou menor
efetivação e capacidade de produzir um tipo específico de consciência social: a
consciência de classe e promover a “negação da negação”, isto é, a negação da
condição de proletariedade por meio da constituição processual da consciência
de classe e luta de classe (classe social no sentido de sujeito histórico capaz
de transformação histórica efetiva) (ALVES, 2013).MF
O proletariado como classe social pressupõe o movimento de classe-em-si para classe-para-si (ou para além-de-si)
e, por conseguinte, o movimento da consciência de classe. Em suma, podemos
dizer que: a “classe” do proletariado e a “classe” da burguesia são por
primazia as classes medulares do modo de produção capitalista. Numa extremidade
assenta-se a classe proletária, que contempla os trabalhadores assalariados
(produtivos ou improdutivos), desguarnecidos e alheios aos meios de produção.
Na outra extremidade da sociedade capitalista encontra-se a burguesia, que
contempla os grandes proprietários dos meios de produção, sendo estes os
agentes concentradores da riqueza social derivada da exploração dos
trabalhadores assalariados, riqueza esta privativamente apropriada por estes
capitalistas.
Assim, para Alves (2013, 34):
o capitalismo
global como capitalismo manipulatório nas condições da vigência plena do
fetichismo da mercadoria expõe uma contradição crucial entre, por um lado, a
universalização da condição de proletariedade e, por outro lado, a
obstaculização efetiva da consciência de classe de homens e mulheres que vivem
da venda de sua força de trabalho.
Já
a definição do conceito de consciência de
classe é um tema extremamente complexo e fecundo. Para um avanço
heurístico, basta definir para este trabalho consciência de classe como o elo que permite a passagem da classe “em
si”, agrupamento com interesses objetivos latentes à classe “para si”, grupo de
poder que tente a organizar-se para o conflito ou a luta política, e cujos
interesses tornam-se manifesto[5]
(STAVENHAGEN, 1970). De forma bastante simplificada o termo engloba crenças e
atitudes de um sujeito a respeito de sua classe social ou condição
econômica, inclusive quanto aos interesses e à estrutura de sua classe social.
Ainda
segundo Lukács (2003) do ponto de vista abstrato e formal, a consciência de
classe é, ao mesmo tempo, uma inconsciência, determinada conforme a classe, de
sua própria situação econômica, histórica e social, de maneira que a vocação de
uma classe para dominação significa que é possível, a partir dos seus
interesses e da sua consciência de classe, organizar o conjunto da sociedade
conforme seus interesses.MF
Segundo Ataíde essa definição contempla prioritariamente dois
carizes essenciais que singularizam a consciência de classe: visão da
totalidade da sociedade e ter um projeto para organizá-la conforme seus
interesses. Ainda segundo Ataíde (ANO p. 04):
Neste
mesmo sentido, ao descrever a formação do proletariado em Miséria da
filosofia, Marx afirma, expressando-se em termos hegelianos, que a
concentração de um grande número de operários nas grandes fábricas das cidades
foi o que primeiramente uniu o proletariado nos primórdios do capitalismo. Mas
nessa primeira forma de união o proletariado se constituía apenas como uma classe
em si, ou seja, era uma classe em relação ao capital. Mas é
necessário que o proletariado se torne uma classe para si mesmo, isto
é, que eleve a necessidade econômica de sua luta de classe ao nível de uma
vontade consciente, de uma consciência de classe ativa.
Ainda para Ataíde (p. 05):
Na
consciência de classe se dá o autoconhecimento do proletariado, o que lhe
revela, ao mesmo tempo, toda a estrutura da sociedade capitalista e sua própria
missão histórica enquanto classe. Tal consciência se constitui, portanto, como
uma unidade dialética indissociável de teoria e prática. É por isso que Lukács
afirma que “a combatividade de uma classe é tanto maior quanto melhor for a
consciência que ela puder ter na crença de sua própria vocação”, isto é, na sua
vocação para dominação, de seu papel e lugar na história.
Proletariado e Consciência e classe são conceitos de certa forma
universais e, sob o regime capitalista, se tornam atemporais. Contudo, o
capitalismo em suas crises busca se reconstituir através de reestrurações
produtivas e a partir da década de 70 a reestruração produtiva do capital
alterou o sociometabolismo das relações de trabalho em escala global, afetando
de forma significativa a vida do proletariado hodierno. É esta a temática de
caráter histórico que será abordado na seção seguinte.
3
RETROCEDENDO NA HISTÓRIA: O
SOCIOMETABOLISMO DO CAPITAL E A PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO
O Homem adquire status social com o
trabalho, tratando-se do salto ontológico que firma o diálogo entre o homem e a
natureza na busca de seus interesses e demandas, sendo este aspecto que
diferencia o Homem dos demais seres; o Homem torna-se um ser social pelo
trabalho (MARX, 2004). Ainda para Marx (2004) é no trabalho que o Homem adquire
humanização. Contudo, no modo de produção capitalista o trabalho se opõe à
humanização e desenvolvimento do ser social, sobrepujando o Homem de sua
consciência, transmutando-o em um ser alienado e entranhado para com o trabalho
(desumanizando, pois, o ser). Esta é a grande contradição do trabalho nas
sociedades capitalistas.
Através
do fordismo, os trabalhadores puderam conhecer a sociedade do consumo em massa,
dando início à fetichização da posse e da mercadoria, causando a expropriação
do trabalhador de sua própria existência (BIHR, 1998; ALVES, 2013). Nas
condições históricas da grande indústria instaura-se com plenitude a disputa tempo
do trabalho estranhado versus “tempo
livre” e a produção em massa impõe consumo de massa, transformando o “tempo
livre” em tempo de consumo e lazer.
Para Alves (2013, p.
222):
Com a disseminação intensa e ampliada de formas
derivadas de valor na sociedade burguesa hipertardia, o fetichismo da
mercadoria e as múltiplas formas de fetichismo social tendem a impregnar as
relações humano-sociais, colocando obstáculos efetivos à formação da
consciência de classe necessária e, portanto, à formação da classe social do
proletariado.
Contudo,
os traços caracterizadores do regime de acumulação fordista traziam as sementes
de sua própria insustentabilidade e falência; falência essa que ocorreu com
intensidade entre o fim dos anos 60 e começo dos anos 70. Para Marcelino (2002,
p. 45) “o regime fordista não conseguiu sustentar a contradição visível de que
ao mesmo tempo em que tornou o trabalhador o agente direto do processo produtivo,
também exigiu dele que participasse apenas com sua capacidade laborativa”.
A
derrocada do fordismo e do keynesianismo evidenciou as contradições intrínsecas
ao capitalismo de acumulação e exploração. Os resultados da conjunção de
fatores levou o capitalismo à queda das taxas de lucros, dos ganhos de
produtividade e aumento dos custos de investimentos e crise da superprodução
(HARVEY, 1994; MÉSZÁROS, 2009). Em conjunto com a crise de 1970, houve a
emergência do processo de globalização econômica ao final da década de 1980 o
gerou um recrudescimento de políticas de cunho neoliberal e o questionamento do
papel do Estado (ANTUNES, 2011).
Uma
das principais consequências dessa crise estrutural, foi o encadeamento de desregulamentação
e flexibilização do processo produtivo, dos mercados e da força de trabalho,
orientados por um forte ataque do Estado e do capital conta a classe
trabalhadora e suas conquistas de base fordista (ANTUNES, 2009), movimento que
passou a ser denominado acumulação
flexível.
Para
Mészáros (2009), a reestruturação do capital, através da acumulação flexível,
através controle social que impôs uma alienação cooptada através de uma intensificação da exploração da mão de obra,
desregulamentação dos contratos de trabalho, do processo produtivo e do mercado,
o que acabou por majorar a longo prazo, a contradição social fundamental, o conflito
entre capital e trabalho.
Harvey (1994) apresenta o novo regime que se instalou a partir
do início da década de 1970: a acumulação flexível, que encontrou na
experiência japonesa os traços para o novo sistema de produção de mercadorias,
que ficou conhecido como toyotismo[6].
A acumulação flexível determinou a necessidade de desregulamentação ampla:
flexibilização dos direitos trabalhistas, heterogeneização do mercado de consumo
e uso intensivo da terceirização (dentre outras); o novo sistema de produção
foi rapidamente incorporado em todos os países de hegemonia econômica
capitalista (EUA, Japão e Europa), e na sequência, por outros (MARCELINO,
2002).
No Brasil, mesmo não sendo de
primeira ordem do capitalismo mundial, a influência deste fez sentir seus efeitos
e segundo Alves (2000) entre 1981 e 1983 começa a se desenhar o toyotismo brasileiro. Com a crise dos anos 80,
grandes demissões tornaram muitos trabalhadores terceirizados sob variadas
formas e outros tipos de precarização dos vínculos contratuais, como os
contratos temporários, terceirizados e em tempo parcial (FRANCO; DRUCK; SELIGMANN-SILVA,
2010) dando início à barbárie da precarização da mão de obra que iria permear
as relações de trabalho nas décadas seguintes.
4 REESTRUTURAÇÃO
PRODUTIVA DO CAPITAL E PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO: A
DESSUBJETIVAÇÃO DE CLASSE
Sob o ponto de vista do trabalhador, o
novo regime de relação capital/trabalho proporcionado pela acumulação flexível,
buscou a intensificação das condições de exploração da força de trabalho de
modo a potencializar o uso de maquinário já disponível e de consequência, aumentar
também os lucros. O novo sistema de produção transfigurou a forma de
organização do trabalho e as relações entre patrões, trabalhadores e
sindicatos. Neste cerne, a acumulação flexível de cariz toyotista inaugurou uma nova etapa da exploração da força de
trabalho, através da cooptação psíquica. Com esta dinâmica, ocorreu a
precarização e a fragmentação das relações de trabalho, obliterando as
possibilidades de consciência de classe do proletariado, obstruindo as relações
sociais e desconstituindo/deformando o sujeito histórico do homem-que-trabalha (ALVES, 2013). Esse esvaziamento
e enfraquecimento da luta de classes é o desejado pelo capital que imprime em
escala mundial uma ação destrutiva contra a força humana de trabalho (ANTUNES,
2009).
Para Alves (2013, p. 86):
a flexibilidade da força de
trabalho expressa a necessidade imperiosa de o capital subsumir, ou ainda,
submeter e subordinar, o trabalho assalariado à lógica da valorização, através
da perpétua sublevação da produção (e reprodução) de mercadorias, inclusive, e
principalmente, da força de trabalho. É por isso que a “acumulação flexível” se
apoia, principalmente, na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados
de trabalho e ainda, dos produtos e padrões de consumo. É a flexibilidade do
trabalho, compreendida como sendo a plena capacidade de o capital tornar
domável, complacente e submissa a força de trabalho, que irá caracterizar o
“momento predominante” do complexo de reestruturação produtiva.
Ainda para Alves (2013, p. 134):
A crise da consciência da
classe é mais um elemento da precarização do trabalho. O movimento voraz do
capital corrói a consciência de classe, contribuindo, desse modo, para a
fragmentação/invisibilização da classe do trabalho. (Grifo da autora)
Para Alves (2000) e Marcelino (2002), a expansão do
capital e a desintegração da trajetória de subjetividade causada pela precarização
da mão de obra provocaram a fragmentação do suporte material do trabalhador
coletivo e das lutas operárias. Essa descentralização produtiva favorece o
esmigalhamento desse trabalhador coletivo e se coloca como obstáculo à
construção de uma consciência da classe e do trabalhador (FRANCO; DRUCK; SELIGMANN-SILVA,
2010), causando uma barbárie para a
materialidade e subjetividade dos trabalhadores.
A precarização abala e esmorece a organização dos trabalhadores,
transfigurando a base objetiva da luta de classes e capturando a subjetividade
do trabalhador (MARCELINO, 2002, ALVES, 2013). Outrossim, o processo de precarização
ocasionado pela flexibilização das relações de trabalho imprimi em escala
mundial um enfraquecimento da dinâmica de estruturação das identidades
individual e coletiva, importando no desencadeamento da alienação e do
estranhamento do trabalho (ANTUNES, 2009). Para Alves (2010, p. 02) precariedade
laboral acarreta:
a deformação de sujeitos
humano-genéricos, aprofundando, deste modo, a auto-alienação do homem que
trabalha com a redução da vida pessoal à mero trabalho assalariado. Por outro
lado, a incerteza e instabilidade das novas modalidades de contratação salarial
e a vigência da remuneração flexível alteram, do mesmo modo, a troca metabólica
entre o homem e os outros homens (a dimensão da sociabilidade); e entre o homem
e si-próprio (a dimensão da auto-referência pessoal). Deste modo, a
precarização do trabalho e a precarização do homem que trabalho implicam a
abertura de uma tríplice crise da subjetividade humana: a crise da vida
pessoal, a crise de sociabilidade e a crise de auto-referência pessoal.
Neste sentido Alves (2010, p.12) exemplifica:
(...) a adoção da lean production ou “empresa enxuta” significa a obnubilização do
“trabalhador social” no plano da consciência contingente de operários e
empregados por meio da reestruturação do “trabalhador coletivo” do capital. A
fragmentação da classe dos trabalhadores assalariados, no sentido da
fragilização (ou flexibilização) dos laços contratuais, opera um processo de
dessolidarização com impactos diruptivo na formação da consciência de classe contingente
e necessária.
Importa neste momento ressaltar que a precarização do
trabalho ocasiona um processo que Alves (2013) denomina de dessubjetivação de classe. Esta dessubjetivação faz parte do pacote
de medidas ofensivas do capital, de cariz toyotista, que buscam o domínio da
psique do trabalhador, o que ocasiona um desmonte da consciência social do
trabalhador, obstacularizando a formação da consciência de classe.
Ilustrando este cenário, Alves discorre formas pontuais de
dessubjetivação do trabalhador (2013, p. 94):
os intensos processos de reestruturação produtiva que
ocorreram nas grandes empresas capitalistas, principalmente a partir de meados
da década de 1970; ou na política, com as experiências históricas de derrotas
sindicais e políticas da classe operária nos últimos trinta anos. Enfim,
derrotas históricas do trabalho no processo de luta de classes levaram, como
resultado irremediável, a intensos processos sociais de dessubjetivação de
classe.
Outro elemento de suma importante que se pode identificar no
movimento de reestruturação produtiva dos últimos 30 anos aliado ao
neoliberalismo global (que provocou a precarização do trabalho) é a apologia ao
individualismo da vida, com sua gama de praticas anti-coletivistas, esvaziando
e fragmentando o discurso sindical e a memória de luta da classe.
Neste sentido para Alves (2010, p. 11):
No contexto histórico da economia, política e cultura
neoliberal, buscou-se restringir e eliminar o desenvolvimento da consciência de
classe e da luta de classes. No habitat da consciência social, a consciência de
classe é uma espécie em extinção. Nos locais de trabalho reestruturados,
salienta-se a presença da individualização das relações de trabalho e a
descoletivização das relações salariais. A crise do Direito do Trabalho, que se
interverte em Direito Civil, é um exemplo da individualização e
descoletivização das relações de trabalho na sociedade salarial.
A dessubjetivação provoca uma degradação dos imperativos
coletivistas da classe dos trabalhadores. Trata-se do vangloriamento do ethos do individualismo que impregna a
sociedade civil neoliberal em prejuízo do ethos
da solidariedade de classe (ALVES, 2013).
Como já se sabe, o home é um ser social, ou seja, ele
interage com outros Homens na busca de atendimento de suas necessidades comuns.
Uma vez que a subjetividade coletivista do Homem que vive sob os auspícios do
espírito toyotista de cariz neoliberal sofre uma degradação, sua capacidade de
se relacionar com outros da mesma espécie em busca do coletivo comum, também se
dissipa.
E é justamente isso que a
acumulação flexível busca, a dissolução do coletivo, com vistas a obliterar o
desenvolvimento da consciência de classe. A precarização do trabalho ocasionada
pelo espírito toyotista traça seus efeitos não somente nas relações de
trabalho, mas na subjetividade coletivista do homem-que-trabalha. É sobre essa
temática que se deterá a próxima seção.
5 O ETHOS INDIVIDUALISTA SOB OS AUSPÍCIOS DA
ACUMULAÇÃO FLEXÍVEL NEOLIBERAL: O OLHO
QUE TUDO VÊ
Sob o espírito do toyotismo, presencia-se o esvaziamento do
discurso do conflito ou luta de classes. Prega-se uma atitude colaboradora dos
membros da equipe de trabalho, que maquia o escopo de envolver o trabalhador no
ideais da empresa
A ideia de gestão de pessoas implica disseminar valores,
sonhos, expectativas e aspirações que emulem o trabalho flexível. Não se trata
apenas de administrar recursos humanos, mas sim, de manipular talentos humanos,
no sentido de cultivar o envolvimento de cada um com os ideais (e ideias) da empresa.
Na verdade, altera-se o modo de ser do trabalhador assalariado e seu nexo
psicofísico com a produção do capital, ampliando-se, como inovação
sociometabólica do capital, a “captura” da subjetividade do trabalho pelos
valores empresariais.
Neste sentido para Alves (2013, p.93):
Portanto, podemos caracterizar a nova morfologia
social do trabalho por dinâmicas psicossociais que implicam a dessubjetivação
de classe, “captura” da subjetividade do trabalhador assalariado e redução do
trabalho vivo a força de trabalho como mercadoria.
O espírito toyotista como agente desestruturador da subjetividade
coletiva do trabalhador ganha destaque através do controle ativo dos
trabalhadores por meio de células: neste sistema os trabalhadores são separados
por equipes; cada uma das equipes é encarregada de cumprir uma meta
preestabelecida pelos gerentes. Contudo, o tempo é escasso para tal atividade,
o que faz com que o trabalhador se concentre integralmente à sua célula de
trabalho, impedindo sua solidariedade coletiva.
Verifica-se no
toyotismo um processo de autoexploração, em que a equipe age de forma gerencial
e supervisora, controlando e fiscalizando individualmente cada trabalhador
(PINTO, 2010). Todos os trabalhadores tem que dar sua total energia, senão
serão julgados pelos próprios colegas, que exercerão controle minucioso de uns
sobre os outros. Não há necessidade um supervisor em função exclusiva, pois um
trabalhador controla e vigia o outro. Tal sistema é nefasto para a constituição
de coletividades entre os trabalhadores e minam as chances de desenvolvimento
de uma consciência de classe. Assim, coloca-se toda a responsabilidade da
produção na figura do trabalhador, que passa a ver os colegas como seu fiscal,
juiz e carrasco.
Premiações e
gratificações para o cumprimento de metas criam no ambiente de trabalho uma
pseudo-colaboração, que acirra ainda mais a precarização do trabalho, o
individualismo e a ausência de consciência de classe.
Este aspecto
do toyotismo, de criar uma ilusão em torno das equipes e do controle de
qualidade torna cada trabalhador o fiscal de todos os outros. Percebe-se então
o caráter panóptico que o sistema exerce sobre o indivíduo-trabalhador. De
forma feliz Alves (2011) fez alusão ao instrumento de vigia de Jeremy Bentham e
julgamos oportuno resgatar a ideia do “olho que a tudo vê”. O panóptico de
Bentham é uma estrutura que, dentro do ambiente organizacional, permite uma
inspeção constante dos sujeitos nas instituições disciplinares (ver sem ser
visto). A ideia do panóptico pode ser utilizada de forma bastante oportuna
quando de trata de captar o espírito toyotista. O método toyotista imprime uma
carga de tensão pelo fato de todos os operários serem vigias de si mesmos e dos
outros. Exemplo são as produções onde os operários devem apontar os defeitos
dos produtos que passam pela sessão anterior à sua. Cada um torna-se supervisor
do outro.
O panóptico de Bentham também é referenciado na obra Vigiar e Punir de Michel Foucalt (XXX).
Podemos de forma acertada buscar trechos na referida obra em que o espírito do
toyotismo ganha ilustração contemporânea como instrumento de controle, vigilância e dominação.
Percebe-se aqui a presença de uma
das ferramentas toyotistas: o Círculo de Controle de Qualidade (CCQ). Esta dinâmica promove
a reunião de grupos de trabalhadores, com o intuito de debater a qualidade do
trabalho em equipe por eles desenvolvido e buscar estratégias para a melhoria
da produtividade e rendimento. Trata-se de mais uma medida individualista em
prejuízo do coletivismo entre os trabalhadores. Os CCQ visam internalizar nos
trabalhadores um ritmo obrigatório, em que o controle é exercido pelos próprios
colegas. Vejamos em Vigiar e Punir a receita deste controle, descrito de forma
cabível para o espírito toyotista:
(...)mais que um ritmo coletivo e obrigatório, imposto
do exterior; é um “programa”; ele
realiza a elaboração do próprio ato; controla do interior seu desenrolar e suas
fases (Vigiar a Punir, p. 178).
No tocante
ao processo de vigilância de um trabalhador sobre o outro, vemos o mesmo
processo em Vigiar e Punir (que neste
momento introduz a ideia do Panóptico):
Vejamos nestes trechos de Vigiar e Punir todo o espírito do
Toyotismo e o que importa concluir neste momento é que este espírito mina as
possibilidades de conjunções de vontade coletivas, essenciais para o
desenvolvimento da consciência de classe.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A organização social e
política dos trabalhadores se efetiva hoje como a forma fundamental de luta
contra a precarização do trabalho e de sua subjetividade. Somente com práticas
de resistências é que se poderá ver aflorar traços, ainda que rudimentares de
desenvolvimento de consciência social capaz de levar ao desabrochar da
consciência de classe. Como explana Alves (2013, p. 219):
A verdadeira crise do nosso
tempo histórico não é a crise das economias capitalistas, mas sim a crise do
homem como sujeito histórico de classe, isto é, ser humano-genérico capaz de
dar respostas radicais à crise estrutural do sociometabolismo do capital em
suas múltiplas dimensões
Lamentavelmente
o cenário não inspira otimismo para a classe trabalhadora refém da ofensiva
neoliberal de cariz toyotista. A classe do precariado não consegue se organizar
e mantém seu caráter fragmentado, com uma fraca representação sindical, impedindo
a passagem da classe em-si para a classe para-si, comprometendo em última
instância a luta de classes e o desenvolvimento da consciência de classe.
A grande
barreira imposta pela precarização do trabalho de cariz toyotista é o ataque à
solidariedade coletiva do trabalhador, impulsionando a dominação ideológica da classe-que-vive-do-trabalho.
No início
deste trabalho retomamos Marx e sua teoria do ser social, que se desenvolve e
se sociabiliza através de trabalho. No cenário contemporâneo, de relações de
trabalho fragmentadas e inseguras, a emancipação humana só poderá ser obtida
com a reflexão de cada trabalhador no sentido de se identificar como classe do
proletariado e resgatar esse pertencimento.
Somente com
essa conscientização é que o proletariado poderá produzir um tipo
específico de consciência social: “a consciência de classe e promover a
“negação da negação”, isto é, a negação da condição de proletariedade por meio
da constituição processual da consciência de classe e luta de classe” (ALVES,
2013, p. 69).
Tragicamente a
estrutura sindical[7],
que deveria conduzir os atos e consciências no sentido do despertar político e
social se cala e se mostra incapaz de desenvolver coalizões de forças, com
raras exceções. O enfraquecimento sindical demonstra que este não conseguiu se
valer de estratégias à altura da ofensiva neoliberal toyotista e seu
sociometabolismo de barbárie social.
Outros catalizadores de luta são os movimentos sociais,
organizações de classe e partidos políticos que buscam a preservação e
ampliação dos direitos dos trabalhadores e há que se considerar ainda a Justiça
do Trabalho. Contudo, como em todos os nichos da sociedade, todos estes agentes
estão sujeitos à influência política e social externos e por isso seus
posicionamentos devem sempre ser avaliados.
Em especial no Brasil, com o governo Temer, o pacote de
privatizações e de medidas neoliberais visando ampliar o lucro da classe
burguesa só faz firmar a tendência ao desmonte dos direitos dos trabalhadores e
a precarização da classe-que-vive-do-trabalho.
O
espírito toyotista arruina as possibilidade do indivíduo enquanto classe
desenvolver sua consciência, posto que prega uma cultura de exacerbação do
individualismo em prejuízo das forma de solidariedade e de atuação coletiva e
social (ANTUNES, 2009, p. 50. Com este cenário, ocorre a destruição do
sindicalismo de classe e sua conversão num sindicalismo dócil, de parceria, ou
mesmo em um sindicalismo de empresa (2009, p. 55).
Somente com debates teóricos e análises de experiências empíricas
será possível vislumbrar mecanismos de assumir as rédeas do controle social
impregnado pela lógica da valorização do valor e do mercado. Impedir que os
trabalhadores precarizados fiquem à margem das formas de organização social e
política de classe um desafio imperioso no mundo contemporâneo (ANTUNES, 2011).
MF
Por
fim, cumpre retomar Marx e buscar sempre seu legado, como a teoria das classes,
em que externa o funcionamento da luta de classes e expõe a exploração do Homem
(como classe) pelo Homem (como classe), concluindo que a classe trabalhadora é
a única que pode por fim às mazelas desta exploração e fazer aflorar a
consciência de classe.
Sandra Oliveira Mayer Barros
REFERÊNCIAS
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ed.) pp. 20-46. Versão eletrônica adquirida pelo Google Books.
e Toyotismo. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010.
[1]
Para Bauman (2009, p. 35) flexibilidade é a plavra de
ordem das novas relações precarizadas. É um termo aplicado ao mercado de
trabalho, implicando no fim do emprego regular; a sociedade do trabalho passa a
contar com contratos de curto prazo, contratos precários ou sem contratos,
cargos sem estabilidade e com clausula de “até novo aviso”.
[2]
Toyotismo aqui é usado no sentido de paradigma, não apenas no sentifo de
sistema de engenharia de produção japonesa, mas no sentido de sistema de
amalgamento de (ver livro Giovanni)
[3]
Antunes (2009) discorre com profusão sobre o conceito de proletariado e envolve
no conceito hodierno de proletariado tanto os trabalhadores produtivos como os
improdutivos.
[4]
Adota-se este conceito, apesar
da renúncia que importantes autores e pesquisadores sociais fizeram da
utilização de conceitos como “classe social”, “proletariado” ou mesmo
“capitalismo”, pois para muitos deles nada existe para além desse modo de
organizar a produção social (o capitalismo), o que percebemos, pelo contrário,
é a ampliação, num patamar universal, do que denominamos de “condição de
proletariedade” e de vigência plena do modo de produção de mercadorias (ALVES,
2013, p. 39)
[5] A
tomada de consciência de classe e a transformação da “classe em si” em “classe
para si” são uma dos mais complexos e delicados problemas da teoria das
classes. Marx, Lukács, Dahrendorf, Parsons e Merton são autores referência para
o estudo de consciência de classe.
[6]
Toyotismo aqui é referenciado como a “ideologia
orgânica” do novo complexo de reestruturação produtiva do capital que encontra
nas novas tecnologias da informação e comunicação e no sociometabolismo da
barbárie, a materialidade sociotécnica (e psicossocial) adequada à nova
produção de mercadorias. Trata-se do espírito do Toyotismo.
[7]
Sobre o sindicalismo, sua crise e seus limites recomenda-se a leitura do dossier “Movimento Operário e
Sindical” Revista São Paulo em Perspectiva. SEADE, Vol. 12. Nº1.1998.
Sindical” Revista São Paulo em Perspectiva. SEADE, Vol. 12. Nº1.1998.
(Conteúdo publicado originalmente na XV Semana de Pós-graduação das Ciências Sociais da UNESP de Araraquara em 2016)

