Luigi Chiozzotto
Michelangelo Antonioni soube como nenhum outro Cineasta compreender e
expressar com tamanha sensibilidade e pela linguagem cinematográfica, a
dificuldade de comunicação entre os seres humanos no mundo de hoje, não obstante
tantos dispositivos criados para estabelecer contato entre os seres. Por isso
Antonioni é conhecido pelo epíteto de “cineasta da incomunicabilidade” e com
distinta razão e atualidade. Embora no início de sua carreira Antonioni tenha
perseguido os passos do neorrealismo, sobretudo em seus primeiros
documentários, “Gente del Po” (1947), por exemplo; já em seu primeiro filme de
ficção "Cronaca di un amore" - Crimes da Alma (1950), já se nota sua
ruptura com os cânones do movimento percebendo-se seu efeito apenas no nível
interior dos personagens, interpretados brilhantemente por Massimo Girotti e
pela estreante, e a época ainda não Atriz, Lucia Bosè. Seus filmes posteriores
invadem o espaço psicológico de sua geração, em especial aquele representado
pela burguesia italiana. Com “Il Grido” – O Grito (1957); Michelangelo explora
a questão do estranhamento do ser em meio a um mundo materialista, mesquinho,
onde ele persegue os caminhos de um homem abandonado pela amada e que não
encontra mais lugar no mundo sem ela. O filme embora rico em elementos
inovadores do ponto de vista psicológico e de linguagem cinematográfica, deixa
a desejar na construção do personagem “Aldo” (Steve Cochran), que por pertencer
a um mundo proletário e consequentemente condicionado a cadeia de produção,
mostra-se estranhamente rebelde ao abandonar sua vida segura para com sua filha
pequena aventurar-se pelo país. Talvez tenha sido esse o motivo de o público
não aceitá-lo, por não ter se identificado, e a crítica tê-lo rejeitado, fazendo com que Antonioni revesse
sua trajetória cinematográfica para os anos seguintes. Uma experiência direta
com o poder da significação da imagem aconteceu comigo quando retornava de
carro com meus primos de Arezzo para a casa deles em Subbiamo, fazendo-me
entender com significativa clareza a postura do enquadramento e a perseguição
dos detalhes no trabalho de Michelangelo Antonioni. No caminho entre essas duas
cidades existe uma capela com um afresco de Piero Della Francesca iluminado por
uma luz difusa vinda do alto das janelas, sob um ambiente que inspira a
contemplação. Antes daquela imagem ser pintada ali havia uma parede branca que
fora inundada por cores e incorporada de linhas que se cruzam e que contam uma
história. Os elementos pictóricos ali distribuídos de maneira a representar
um momento da vida do homem viajaram no tempo nos emocionando sobremaneira
mesmo após três séculos. Os humanos, por assim dizer, que estão representados
na tela, nada falam, a imagem não emite som algum, no entanto, a impressão que
se tem é de ouvir os ruídos daquele momento. Transferindo essa sensação para a
tela branca do cinema, onde é projetada a imagem, em particular num filme de
Michelangelo Antonioni, o que percebemos é algo semelhante; os elementos
distribuídos em cena, objetos, personagens, iluminação, tudo faz com que o som,
ou o simples pronunciamento de palavras seja mera convenção, um adorno para
suportar a significação da imagem, uma espécie de moldura dourada em torno a um
quadro. Para mim a cinematografia de Antonioni representa um estudo da evolução
do olhar humano através dos meios de captação de imagem de nosso tempo, assim
como Piero Della Francesca observou o seu mundo através de uma perspectiva
representação tridimensional que possibilitava dar a ilusão da espessura e da
profundidade, revolucionando a pintura moderna, Antonioni o faz no fotograma, e
com uma abordagem poética, singular, emocionante, revolucionando ao seu modo o
cinema mundial. Mas sua relação com a pintura não é exatamente aquela de Piero
Della Francesca o qual citei como exemplo de comparativo para falar de um
Cineasta que busca uma linguagem estética mais elevada, mas sim a citação de
artistas plásticos contemporâneos. Nos filmes de Antonioni há por exemplo
Filippo de Pisis, Giorgio De Chirico, Giorgio Morandi, Pollock, Rothko entre
outros.
E-mail chiozzottoit@gmail.com
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