Fellini no prenúncio da concepção de um filme fala dele
como se ainda não lhe pertencesse de fato; um ser mágico que se deixa descobrir
aos poucos. Nesses primeiros encontros, ainda envolvido em uma atmosfera típica
dos sonhos, o filme dá algumas indicações de como pretende ter sua aventura terrena
contada. Fellini ainda não tem nenhum poder sobre o seu destino, e na verdade
nunca terá, pois é o destino do filme que conduzirá grande parte dos
acontecimentos que o cercam. Como uma tela em branco diante um pintor que ainda
não sabe o que vai pintar: uma paisagem, um rosto, ou um nu; ele é apenas um
espectro em uma seção espírita. Filme, cuja história Fellini não sabe precisar
detalhes, pois não o escolheu, e sim fora escolhido pelo filme. A vaga ideia de
argumento se apresenta por resquícios de imagens, contornos de expressões
faciais e formas de vestir que muitas vezes aproximam-se de caricaturas de
seres reais que Fellini desenha em pedaços de papel dos mais diversos:
envelopes, guardanapos, extratos bancários etc. Nesse estágio Fellini convoca
pessoas comuns que o visitam em seu estúdio, oriundas de anúncios em jornais
para tentar sublimar nelas as personagens vislumbradas no filme que aceitou
trabalhar naquele momento. Nessas condições um filme faz parte de uma magia que
evoca inevitavelmente a presença de um mago para realizar essa transmutação a
partir da visão que ele tem dos egos de suas personagens. E ao escolher o
elenco Fellini apenas dá vida temporária àqueles egos.
Enviava o seu fluído para
me hipnotizar, em outras palavras para me fazer transformar-se no vovô, naquele
próprio vovô ali, enquanto filmávamos a cena da neblina, quando eu me perdi e
tenho medo, Fellini não fazia outra coisa que gritar - Ianigro não vê nada, e
enviava o seu fluido, - He, He!! – Mas eu sou um mago e os magos vêem sempre,
mesmo no escuro. Os entendidos dizem que Fellini hipnotiza seus atores para
fazer deles aquilo que quer, mas eu não. (GIUSEPPE IANIGRO), personagem do avô
de Titta em Amarcord em entrevista dada em Viaggio
nell’Italia che cambia.
O filme precisa de Fellini para poder sair do plano que
está e cristalizar-se no fotograma, tornar-se parte do inconsciente coletivo,
algo inspirado na realidade e sussurrado por essa energia que emana do mundo
supra-sensível com o qual o mago Fellini parece se comunicar. Através dessa
descrição o leitor pode até ser levado a acreditar tratar-se do argumento do
filme ‘Fellini 8 e mezzo’,
entretanto, é na verdade do ethos felliniano que estou falando enquanto me movo
pelas pistas do enigma.
Nenhum diretor de cinema
me influenciou. Em todo caso, nem mais nem menos que os demais. O cinema em seu
conjunto influenciou-me, mas igualmente influenciaram-me minha família, minha
religião, minha educação, meu casamento, meus amigos e assim por diante: tudo
que pertence a minha época, tudo que me tornou o que sou. (Federico Fellini) (FELLINI
1986)
E é ao descobrir-se um mago que Fellini passa a ter
domínio, como nenhum outro cineasta, da magia da sétima arte, muitas vezes
dispensando até mesmo roteiros para realizar um filme, mas nunca deixando de
confiar em sua equipe de trabalho que o acompanha há anos, a qual ele considera
parte de sua família, por vezes fora padrinho de casamento de filhos de seus
colaboradores. A partir dessa nova experiência sensorial os laços neorealistas
também são reforçados no momento em que Fellini coloca na aura de suas
personagens características de comportamento que vêm de encontro à condição
imposta pelo meio social sem entrar em atrito, elas buscam a redenção na aceitação
de suas fragilidades como humanos. A diferença com Rossellini e Visconti, seus
contemporâneos neorealistas, é que suas personagens desafortunadas não se
revoltam contra o sistema, razão de ser do sofrimento. “Nunca tive a
preocupação de me afastar do neorealismo com o qual jamais me identifiquei,
mesmo quando trabalhei ao lado de Rossellini. Essa foi uma grande experiência
de vida, como tantas outras coisas, mas eu jamais a considerei dependente de
uma estética” (FEDERICO FELLINI), (PETTIGREW, 1994). Os seres fellinianos antes
de se apresentarem como ‘gente comum’, e iguais uns aos outros, percorrem
individualmente, na senda da navalha, o seu caminho evolutivo em busca da
salvação. E no percurso de suas existências essas almas deparam com seu próprio
‘eu’, vislumbrando o autoconhecimento; como diz Bazin, seus personagens não
evoluem, amadurecem. “Tenho a impressão que Fellini é o diretor que vai mais
longe, hoje, na estética do neorealismo, tão longe que atravessa e se encontra
do outro lado.” Andre Bazin.
O filme é o meio ideal para a minha maneira de
narrar histórias. Ele me dá flexibilidade que não encontro em nenhuma outra
parte. Nesse aspecto, o filme supera a pintura. Posso inventar a vida em
imagens móveis, posso entrar em outras dimensões, posso exagerar, colocar
acentos próprios e filtrar a essência. Mais do que a música, a pintura, e até a
literatura, para mim o filme está perto da própria criação. Ele é como uma
forma de vida com impulsos próprios de existência, realidades próprias, formas
próprias de inteligência. Eu parto de um
sentimento – não de uma idéia, muito menos ainda de uma ideologia. Estou a
serviço da minha história, que gostaria de ser contada, e devo perceber para
onde ela quer me conduzir. (FEDRICO FELLINI), (CHARLOTTE, 1991).
As imagens criadas por Fellini e retiradas de sua
imaginação, experiência sensorial, sonhos são reconstituídas em desenhos, adornadas
por frases poéticas num processo que se completa no cinema entre luzes, sombras,
personagens. “Luci del
varietà, Lo sceico bianco, I vitelloni, La strada, Le notti di Cabiria, La dolce vita, Otto e mezzo e Amarcord" estão na lista dos 100 filmes
que mudaram a memória coletiva italiana a serem salvos pelo Ministério dos bens
culturais italiano.
Luiz Chiozzotto
Ensaio do livro de Luiz Chiozzotto sobre o Cinema italiano.
e-mail: chiozzottoit@gmail.com
Ensaio do livro de Luiz Chiozzotto sobre o Cinema italiano.
e-mail: chiozzottoit@gmail.com
