terça-feira, 17 de julho de 2018

Spaghetti western, um gênero cinematográfico por excelência arena das lutas de classes

Sergio Leone e Claudia Cardinale em C'era una volta il West


O cinema italiano no seu auge, anos 1960/1970, alcançou públicos nos países mais distantes porque aproveita a criatividade de seus argumentistas, roteiristas e diretores cinematográficos em filmes de gênero, dos quais o mais famoso foi o Spaghetti western. Duccio Tessari e os três Sergios, Sergio Leone, Sergio Sollinas e Sergio Corbucci foram os grandes diretores a levar às telas de cinema de todo o mundo filmes ambientados no velho oeste americano feitos no deserto de Almeria. Nessa década eram os temas inspirados na conquista do espaço que faziam sucesso, pois os americanos queriam provar superioridade contra a U.R.S.S que muito avançada em tecnologia espacial já havia colocado um homem no espaço ao redor da terra com sucesso. Nesse contexto o western era coisa do passado, talvez por serem aqueles feitos pelos americanos sisudos demais, pouco inventivos, sobretudo, por não refletirem mais a realidade, nem dos anos que retratavam, tão pouco por não conseguir aderir à realidade do tempo em que eram feitos. As roupas desgastadas e empoeiradas dos cowboys nos almoxarifados das grandes produtoras de Hollywood ocupavam espaço e eles não tinham mais ideia do que fazer com elas. Foi Sergio Leone, um apaixonado pelo gênero que o fez florecer na Itália, reconstruiu cenários do velho oeste com perfeição em Cinecittà em Roma e aproveitou da similaridade dos desertos de Almeria na Espanha com aquele ambiente do velho oeste. Para realizar Per un pugno di dollari - Por Um Punhado de Dólares (1964) seu primeiro filme da trilogia do dólar, Leone alugou aqueles velhos e surrados uniformes dos cowboys que vestiram muito bem os seus psicologicamente complicados personagens em busca de uma identidade que os inserissem na sociedade. Ao contrário daqueles americanos que contavam histórias das conquistas sangrentas de norte-americanos contra os Apaches, naturais do território, os filmes italianos refletiam a identidade dos sujeitos dos anos 60’. Leone ambienta suas histórias no clima político italiano e sob a atmosfera da revolução de 68’, que entre outras coisas colocava a questão da emancipação da mulher no centro das reivindicações e movimentos de rua, como ele fez em C'era una volta il West - Era uma Vez no Oeste (1968), ao colocar pela primeira vez como protagonista de uma história do western Claudia Cardinale. Os heróis do Spaghetti western não lutavam com índios, não se concentravam em forte apaches, nem sempre eram americanos que em busca de povoar o velho oeste iam contra as leis de civilidade. Os heróis do Spaghetti western mantinham-se na fronteira com o México onde o conflito com os sub proletários mexicanos se dava em função da necessidade que eles tinham de roubar aquilo que o Estado mexicano não lhes proporcionava e pior, lhes roubava através de um poder constituído por corruptos ditadores. Como uma vez disse Thomas Milian interprete de muitos heróis peões da tortilla movie: “Muitos westerns de terceiro mundo fizeram bastante caixa porque, enquanto o herói era sempre americano, o homem do terceiro mundo podia ser em certo sentido também o proletário” (Thomas Milian) (UVA & PICCHI, 2006, p 35) Trad. Autor. Dessa maneira o Spaghetti western foi uma arena onde o cinema pode abordar temas políticos sociais hodiernos na Itália e de países sul americanos sob o domínio de ditaduras militares inspiradas pelos ares belicosos oriundos do Pentágono e da guerra fria. Os cowboys dos Sergios eram franceses, alemães, italianos, e às vezes americanos, refletiam os imigrantes europeus que ao chegarem à America tinham que lutar pelo seu espaço. Os conflitos e batalhas no Spaghetti western não eram entre exércitos americanos atacando com desequilíbrio de forças um bando de índios que com flechas defendiam seu território, eles se davam em pequenos confrontos, ao estilo guerra de trincheiras e contra os mexicanos.  Os mexicanos nos filmes de Spaghetti western eram representados como indivíduos alienados, capitães do mato que manipulados por patrões gananciosos e ditadores sacrificavam seus iguais ampliando a injustiça, a desigualdade social e a concentração de renda em favor dos mais ricos da sociedade mexicana, perpetuando a manutenção de políticos corruptos no poder. Vamos relembrar um pouco dos grandes filmes italianos esquecidos, a partir da cinegrafia de criativos cineastas italianos, entre 1964 e 1975, auge do Spaghetti western, alguns diretores italianos que mais exploraram o tema foram: Bruno Corbucci; Giulio Petroni; Roberto Mauri; Gianfranco Parolini; Sergio Bergonzelli; Camillo Bazzoni; Enzo Barboni; Luigi Bazzini; Ferdinando Baldi; Ernesto Gataldi entre outros.

Luiz Chiozzotto.

e-mail: chiozzottoit@gmail.com

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